MAIS EMPREGOS OU MENOS INFLAÇÃO?
SYDNEY A. LATINI
Economista
O esforço concentrado do governo para conter a inflação,
nestes últimos anos, atraves de medidas consubstanciadas no Plano Real, frequentemente denominado plano
de estabilização econômica, induz não raro à convicção de que para
conter a persistente elevação dos preços é indispensável desacelerar a atividade
aconômica, desestimular investimentos, conter a produção e gerar desemprego. Nada mais enganoso.
Estável – e, consequentemente, estabilização – é conceito associado a tudo que é
sólido, permanente, duradouro. Economia estabilizada portanto, é uma economia sólida, permanente,
duadoura.
Medidas que induzem à desaceleraçào da atividade econômica, desestimulam investimentos,
contêm a produção e geram desemprego não resultam numa economia sólida, permanente
e duradoura.
O que o governo conseguiu com o Plano Real, foi estabilizar os preços à custa da desaceleração
da ativiadade econômica, do desestímulo aos investimentos, da contenção da produção
e, sobretudo, de uma preocupante geração de desemprego, no decorrer destes últimos cincos
anos de sua vigência. Para estabilizar os preços desestabilizou-se a economia, como demonstram fartamente
os indicadores econômicos.
Durante décadas a economia brasileira cresceu à taxa média de 7% a.a., surpreendendo o mundo,
não obstante a convivência com uma persistente inflação que acabou atingindo níveis
insuportáveis, que era imprescindível abater.
Com o Plano Real, partimos para o extremo oposto. Contivemos uma inflação galopante num prazo tão
curto que também surpreendeu o mundo. Em compensação, a economia nunca cresceu tão
lentamente, chegando mesmo a decrescer, como se prevê para o corrente exercício.
É preciso buscar o meio termo. Após cinco anos de sucesso do plano de estabilizaçào
de preços,está mais do que na hora de dispensar-se maior atenção à economia
real e ao seu desenvolvimento.
As convicções dominantes na área responsável pela formulação da política
econômica privilegiaram a defesa da moeda, que daria base para o governo cuidar do crescimento da economia.
A inexistência da inflação seria, nessa visão, um fator preponderante de distribuição
de renda, de geração de empregos e, por consequência, de bem-estar social.
Em que pese a veracidade parcial da tese, a ordem dos fatores deve ser invertida. Quando se pensa um país
a partir das pessoas é que se pode chegar à verdadeira solução do problema da moeda.
Sempre que se pára a atividade econômica das pessoas, acontece o desastre.
É o crescimento da produção, da economia, afinal de contas, que estabelece as bases sólidas
para fazer face aos desafios de natureza financeira, numa visão de longo prazo.
Cabe a pergunta: teria sido possível derrubar a inflação, da astronômica taxa de 2.700%
a.a. em 1994 para 2 ou 3% a.a., em menos de cinco anos, sem a competição irrestrita das mercadorias
importadas, a preços muito inferiores aos das mercadorias produzidas no Brasil? Provavelmente não,
mas tudo poderia ter sido feito com gradualísmo. A queda da inflação não teria sido
tão espetacular, num período tão curto mas, em compensação, tantas empresas
não teriam encerrado suas atividades,criando um número tão grande de desempregados,com todas
as consequências sociais negativas. A economia brasileira não teria se tornado tão dependente
do exterior e tão vulnerável ao capital especulativo, nacional e estrangeiro. Não teria havido
um gráu tão elevado de desindustrialização e o empresariado nacional estaria mais fortalecido
para enfrentar a competição crescente que a globalização da economia exige – mesmo
com uma taxa de inflação maior do que a atual, e cadente.
|