JORNAL DE PLÁSTICOS - JULHO DE 1999

MAIS EMPREGOS OU MENOS INFLAÇÃO?
SYDNEY A. LATINI
Economista
O esforço concentrado do governo para conter a inflação, nestes últimos anos, atraves de medidas consubstanciadas no Plano Real, frequentemente denominado plano de estabilização econômica, induz não raro à convicção de que para conter a persistente elevação dos preços é indispensável desacelerar a atividade aconômica, desestimular investimentos, conter a produção e gerar desemprego. Nada mais enganoso. Estável – e, consequentemente, estabilização – é conceito associado a tudo que é sólido, permanente, duradouro. Economia estabilizada portanto, é uma economia sólida, permanente, duadoura.
Medidas que induzem à desaceleraçào da atividade econômica, desestimulam investimentos, contêm a produção e geram desemprego não resultam numa economia sólida, permanente e duradoura.
O que o governo conseguiu com o Plano Real, foi estabilizar os preços à custa da desaceleração da ativiadade econômica, do desestímulo aos investimentos, da contenção da produção e, sobretudo, de uma preocupante geração de desemprego, no decorrer destes últimos cincos anos de sua vigência. Para estabilizar os preços desestabilizou-se a economia, como demonstram fartamente os indicadores econômicos.
Durante décadas a economia brasileira cresceu à taxa média de 7% a.a., surpreendendo o mundo, não obstante a convivência com uma persistente inflação que acabou atingindo níveis insuportáveis, que era imprescindível abater.
Com o Plano Real, partimos para o extremo oposto. Contivemos uma inflação galopante num prazo tão curto que também surpreendeu o mundo. Em compensação, a economia nunca cresceu tão lentamente, chegando mesmo a decrescer, como se prevê para o corrente exercício.
É preciso buscar o meio termo. Após cinco anos de sucesso do plano de estabilizaçào de preços,está mais do que na hora de dispensar-se maior atenção à economia real e ao seu desenvolvimento.
As convicções dominantes na área responsável pela formulação da política econômica privilegiaram a defesa da moeda, que daria base para o governo cuidar do crescimento da economia. A inexistência da inflação seria, nessa visão, um fator preponderante de distribuição de renda, de geração de empregos e, por consequência, de bem-estar social.
Em que pese a veracidade parcial da tese, a ordem dos fatores deve ser invertida. Quando se pensa um país a partir das pessoas é que se pode chegar à verdadeira solução do problema da moeda. Sempre que se pára a atividade econômica das pessoas, acontece o desastre.
É o crescimento da produção, da economia, afinal de contas, que estabelece as bases sólidas para fazer face aos desafios de natureza financeira, numa visão de longo prazo.
Cabe a pergunta: teria sido possível derrubar a inflação, da astronômica taxa de 2.700% a.a. em 1994 para 2 ou 3% a.a., em menos de cinco anos, sem a competição irrestrita das mercadorias importadas, a preços muito inferiores aos das mercadorias produzidas no Brasil? Provavelmente não, mas tudo poderia ter sido feito com gradualísmo. A queda da inflação não teria sido tão espetacular, num período tão curto mas, em compensação, tantas empresas não teriam encerrado suas atividades,criando um número tão grande de desempregados,com todas as consequências sociais negativas. A economia brasileira não teria se tornado tão dependente do exterior e tão vulnerável ao capital especulativo, nacional e estrangeiro. Não teria havido um gráu tão elevado de desindustrialização e o empresariado nacional estaria mais fortalecido para enfrentar a competição crescente que a globalização da economia exige – mesmo com uma taxa de inflação maior do que a atual, e cadente.

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