JORNAL DE PLÁSTICOS - MAIO DE 1999

A GLOBALIZAÇÃO E A
REALIDADE BRASILEIRA
Sydney A. Latini - Economista
A globalização não cria necessariamente embaraço ao desenvolvimento econômico e pode até criar novas oportunidades de crescimento, desde que os agentes tenham uma noção clara do processo e os governos desenvolvam estratégias que permitam aproveitar vantagens da globalização.
É possível obter uma inserção internacional adequada do país se o estado brasileiro tiver um planejamento estratégico que contemple uma visão sistêmica e holística do desenvolvimento sustentado.
Hoje em dia o neoliberalismo está na moda e dele se espera a solução para todos os nossos problemas. É imperativo considerar, no entanto, que num país como o Brasil, com grandes desigualdades regionais e econômicas, numerosa população, e problemas sociais agudos, cometer-se-ia um erro grave em adotar um modelo como esse sem pensar profundamente sobre a adequação à sua realidade. Precisamos procurar soluções próprias para os nossos problemas. Estas soluções podem, naturalmente, incorporar elementos provenientes da experiência de outros países, mas a adaptação não pode ser mecânica.
O reconhecimento de que em menos de setenta e cinco anos depois de ter sido iniciada oficialmente, a disputa entre capitalismo e socialismo terminou com a vitória do capitalismo, não implica em admitir que venceu o estilo anglo-saxão (ou norte-americano) de capitalismo.
A autorizada revista “The Economist”, em recente edição, analisando o modelo econômico americano, questiona: “Será que o modelo americano provou sua superioridade?”
Após discorrer sobre os sete modelos que considera os mais representativos ( o próprio modelo americano, o japonês, o dos “tigres asiáticos”, o alemão, o sueco, o neo-zelandês e o holandês), conclui que o modelo ideal muda de acordo com as circunstâncias.
Sem pretender entrar no mérito de cada um desses modelos, três características do modelo japonês, que muito influencia os modelos dos chamados “tigres asiáticos” - principalmente Coréia do Sul e Taiwan - devem merecer ( ou já deveriam estar merecendo) atenta análise dos formuladores da política econômica e social do governo brasileiro, a saber:
- a íntima cooperação entre governo e iniciativa privada;
- a valorização dos recursos humanos; e
- a formação e preservação de uma burucracia estatal competente.
As relações estreitas entre as empresas, o sistema bancário e o governo tornaram possível a formulação e execução de políticas mais preocupadas com o longo prazo e menos vulneráveis às contigências de curto prazo.
A atenção dispensada pelas empresas e pelo governo à educação, em todos os níveis, com ênfase especial ao treinamento de mão-de-obra e a preocupação com o seu bem estar, constituíram as bases de uma sociedade solidária e de uma coesão social que explicam o elevado nível de produtividade e os baixos níveis de litígio entre patrões e empregados.
A existência de uma burucracia estatal capaz é outro elemento que poderia ser imitado - e o nosso país tem boas condições para perseguir esse objetivo, tendo em vista os padrões já atingidos em passado não muito distante. O perigo a evitar é o de criar uma burocracia eficiente mas divorciada da realidade social que a circunda.

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