JORNAL DE PLÁSTICOS - MARÇO DE 1999

REAJUSTE FISCAL E TRANSPARÊNCIA

Sydney A. Latini
Consultor Econômico

 
O Estado não pode mais viver além de seus limites, gastando mais do que arrecada. Não só o Estado. Mas também as empresas, as pessoas, todos enfim.
Chega sempre o momento em que - de uma forma ou de outra - o equilíbrio tem que se restabelecer.
Fundado nessa premissa básica, o Governo Federal transformou seu Programa de Estabilidade Fiscal no objetivo máximo de sua gestão e, para atingi-lo, espera que a nação compreenda suas intenções e que abra mão de suas próprias aspirações - até ao sacrifício - pagando mais impostos, recebendo menos salários (aceitando até o desemprego), auferindo menores lucros, conformando-se com serviços públicos deficientes (ou mesmo, em alguns casos, nenhum serviço público). Tudo para que as contas públicas se equilibrem e para que... depois tudo atinja a normalidade. Uma normalidade tão distante, no passado, que parece quase impossível atingi-la no futuro.
Assim, tem lógica a pergunta que todo cidadão faz: “O que o governo está fazendo com o meu dinheiro?”
Considerando o que arrecadam os três níveis do governo (federal, estadual e municipal), cerca de 30% são subtraídos, em tributos, de tudo que o país produz em mercadorias e serviços. Supostamente para atender as despesas nas áreas de educação, saúde, segurança pública, justiça, construção de estradas, portos, saneamento, enfim tudo o que justifica a existência de governos.
Mas o que se constata é que os professores, os médicos, os policiais, e a esmagadora maioria dos servidores públicos, são mal pagos, justificando-se, assim, a má prestação de serviços; que as obras públicas não são construídas ou conservadas, porque não há recursos; que o excesso de burocracia governamental inibe o bom desempenho das empresas e que, enfim, o somatório dessas deficiências torna a produção nacional cara e não competitiva no mercado interno e no mercado internacional.
Por outro lado, as páginas dos jornais estão cheias de noticiário sobre corrupção, sobre salários astronômicos, pagos a categorias privilegiadas, construção de obras faraônicas ou inacabadas e ociosidade no serviço público.
O cidadão tem não só o direito mas o dever de saber o que o governo está fazendo com o seu dinheiro. Compreende-se que uma nação se constrói com sacrifício. Mas sacrifício consciente. Não se pode esperar que as autoridades cobrem o máximo dos contribuintes, sem prestar contas à sociedade sobre o destino do dinheiro.
Miremo-nos no exemplo de países que já conseguiram superar o nosso estágio de desenvolvimento, nos quais o dinheiro do contribuinte entregue ao governo é objeto de permanente vigilância, desde a discussão da proposta orçamentária. Em países civilizados a proposta orçamentária é amplamente discutida pela nação. O orçamento não é apenas um documento hermético, somente acessível aos iniciados, mas é traduzido em linguagem popular e fartamente divulgado, ao alcance de qualquer cidadão, até nas bancas de jornais. E os cidadãos se manifestam, individualmente ou através de entidades comunitárias que impõem sua vontade através de seus legítimos representantes nos parlamentos.

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