JORNAL DE PLÁSTICOS - ABRIL DE 2001



O ESTADO, O MERCADO E A GLOBALIZAÇÃO


Sydney A. Latini


O principal objetivo da desvalorização cambial de janeiro de 1999 foi a recuperação das exportações e, por extensão, do emprego.

Acreditou-se que a desvalorização seria a solução, esquecendo-se que a abertura da economia e a forte redução tarifária, aplicada quando Ciro Gomes era ministro da Fazenda, alteraram radicalmente o perfil da produção industrial, hoje modernizada mas com elevado índice de componentes importados. Não se levou em conta que, quando uma economia é mantida fechada por muito tempo, não se pode subitamente expor suas empresas à competição, sem lhes dar as mesmas condições lá de fora: sistema de crédito adequado, de longo prazo, com juro competitivo, sistema tributário, recursos humanos, legislação e instituições semelhantes.

Era de se esperar, no entanto, que nas exportações se repetisse fato comprovado por ocasião de outras maxi-desvalorizações da moeda nacional: os importadores que antes aceitavam pagar mais, reconhecendo serem baixos os preços recebidos pelos exportadores, passaram a exigir descontos para compensar a maior remuneração na troca do dólar por reais.

E mais: como a desvalorização cambial foi “vendida” como panacéia, capaz, por si só, curar os males causados pela sobrevalorização cambial anterior em termos de competitividade da industria nacional, o Brasil se acomodou (por culpa conjunta do governo, Congresso, empresários e sindicatos) e perdeu mais de dois anos no aprofundamento das reformas estruturais.

Nossos portos estão sem estrutura física para receber e despachar cargas na velocidade exigida pelo comércio mundial. De que adianta uma supersafra, produzida com baixo custo na fazenda, se a partir da porteira só fazemos aumentar os custos? As vantagens competitivas vão sendo reduzidas quando o Estado (representado pelo Executivo e o Legislativo) demora mais de seis meses para deflagrar a reforma tributária.

Quando o real foi lançado, com âncora cambial, em 1º de julho de 1994, seus formuladores diziam que o país teria que avançar rapidamente na reforma fiscal e nas demais, incluindo a tributária, para poder se livrar da amarra cambial. O tempo passou, as reformas ficaram pela metade e estacionaram depois que o real foi desvalorizado. O resultado é que o custo Brasil (a soma dos custos gerados pela ineficiência acumulada) nos tira competitividade. Ou seja, capacidade de crescer e de gerar mais emprego na era da globalização (ganhando mercado lá fora e resistindo aqui dentro).

Além de manter os preços estáveis, para estimular a confiança dos consumidores e dos investimentos dos empresários, garantindo o ajuste da oferta à expansão da demanda, cabe ao Estado, que deixa de ser empresário, promover o desenvolvimento investindo prioritariamente em infra-estrutura, quando a mão do mercado não age a contento.

Ou corrigimos mazelas seculares ou seremos atropelados pela marcha inexorável das mutações que independem de nossa vontade e de nossas decisões, num mundo que se globaliza a passos largos.


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