Abril de 2004

O imperativo do desenvolvimento e os riscos da inflação

Sydney A. Latini*

                Após quase dezesseis meses do Governo iniciado em janeiro de 2003, é cada vez mais impaciente a cobrança de praticamente todas as camadas da sociedade, por sinais mais evidentes de crescimento da economia para atender, inclusive, a compromissos de campanha da chapa vitoriosa.  Enquanto isso, a equipe responsável pela formulação e execução da política econômica persegue, sem vacilação, a meta estabelecida de contenção da inflação, segura de que este é o caminho mais adequado para lograr a retomada do crescimento e garantir sua continuidade, em patamares mais elevados, com criação de emprego, aumento de renda, de consumo e de investimentos.

        Estabilidade (embora relativa) de preços, sem desenvolvimento; desenvolvimento, apesar da inflação; ou desenvolvimento sem inflação (desafio que soa utópico a médio prazo, pelo menos, para países emergentes). São esses os dilemas.

        A discussão das três hipóteses transcende o espaço deste artigo.  O que se pretende lembrar é a experiência vivida no governo Kubitschek (1956/1961), de desenvolvimento apesar da inflação.

        Tal como parece haver sido, ou ainda continua sendo, agora, com o Governo Lula, desde as primeiras tentativas de elaboração de um programa de governo para o então candidato Juscelino Kubitschek, previa-se um período de luta contra a inflação, concentrada no primeiro ano de governo (1956); um período de recuperação econômica, de 1957 a 1961, compreendendo a execução do Plano de Metas, até o final do governo (janeiro de 1961); e um período de tolerância para a conclusão de alguns setores, que se estenderia até o final de 1961.

        Ainda antes da posse, foi elaborado documento que dava especial ênfase às conseqüências negativas da inflação e recomendava as seguintes ações corretivas: uma política de contenção orçamentária, uma política de controle do crédito, o sofreamento de reivindicações salariais e melhor utilização da capacidade produtora; além de uma reforma cambial baseada num sistema de taxa flexível e ênfase à necessidade de uma política ativa de exportação e de aumento do ingresso de capitais estrangeiros.

        Juscelino não se entusiasmou, desde o início, com o tom restritivo das ações corretivas. Inclinava-se, sem dúvida, pela versão estruturalista da CEPAL segundo a qual a industrialização de economias subdesenvolvidas só é possível com certo nível de inflação administrada, enquanto o tratamento antinflacionário ortodoxo sossobraria nos escolhos da estagnação.

        Segundo depoimento de Lucas Lopes, um de seus colaboradores mais próximos, em suas “Memórias do Desenvolvimento” (CEPEDOC/FGV, 1991), Juscelino “sempre teve a convicção de que era preciso ultrapassar a fase de entorpecência que o Brasil vivia.  Ele aceitou o desafio de viver sob um regime de inflação para ir mais longe nesses objetivos, mas hoje estou convencido de que sem o espírito aventureiro, sem o espírito de luta de Juscelino, o Brasil não teria tido o choque de progresso que teve. O choque que Juscelino trouxe não está apenas nas metas cumpridas.  Está no espírito que ele criou no Brasil. Ele criou uma confiança total, em grande parte dos brasileiros, no seu futuro.  Isso ajudou a implantar todo o processo de industrialização, incentivou os investimentos.  Seu governo foi um momento em que nós, que estávamos correndo riscos inflacionários, mas sabíamos também que esses riscos deviam ser corridos, pois estávamos tentando entrar num processo de “take-off” [arrancada],  de demarragem econômica. E nesse processo, as tensões são muito grandes”.

        Roberto Campos, outro dos responsáveis pela formulação e execução do Plano de Metas, também reconhece que o desenvolvimento com inflação do período Kubitschek esteve longe de ser uma experiência desenvolvimentista sustentável, mas propiciou “um salto industrial qualitativo e quantitativo, além do feito democrático de uma transição política normal,” e transformou “o  desenvolvimento numa fonte de otimismo psicológico e legitimação política”  ( “A Lanterna de Popa” – Topbooks, Rio de Janeiro, 1994), “ embora tenha deixado o País com aceleração inflacionária”.

        A política monetária do governo JK tem sido criticada com excessivo rigor, como atestam os seguintes números: a) foi no governo JK (1956/60) que a inflação atingiu o menor índice, desde 1950 até hoje, 6,6% em 1957; b) no último ano da era jusceliniana, a inflação já havia caido de 39,4% (1959) para 30,6%; c) se calcularmos a inflação média no período 1956/1960 (governo JK), verificaremos que situou-se em 25,2%; d) no período 1965/1968 – gestão financeira Roberto Campos/ Octávio Gouveia de Bulhões, durante o regime militar iniciado em 1964, a inflação média foi de 30,75%; e) fazendo-se o cálculo com número de período 1964/1968 (já que a gestão RC/OGB iniciou-se em abril de 1964), a inflação média foi de 42,92%.

        Ainda faltam 32 meses para o presidente Lula poder encerrar o seu mandato anunciando uma taxa de crescimento da economia, digamos, de 7% em 2006, mesmo que se tenha de correr o risco de atingir uma inflação de 12/12,5% ao final daquele ano, mas com desemprego abaixo de 5%, e muita esperança no futuro! Vale a pena tentar.

*Economista, foi Secretário Executivo do GEIA-Grupo Executivo da Indústria Automobilística durante o Governo JK.


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