JORNAL DE PLÁSTICOS - AGOSTO DE 2000

PLÁSTICOS BIODEGRADÁVEIS
TRAZEM MELHORIA AMBIENTAL

Anna Paula Sotero
(Unicamp - Newsletter-Labjor)


O crescimento populacional e econômico, na maioria dos países ocidentais, teve como conseqüência um aumento enorme na produção de lixo. Dados estatísticos mostram que, no Brasil, são despejados de 240 a 300 mil toneladas diárias de resíduos urbanos (RSU) no meio ambiente, dos quais, cerca de 19% são plásticos. A produção anual de plásticos é de aproximadamente 2,2 milhões de toneladas, dos quais 40% destinam-se à indústria de embalagens. Futuramente, essa porcentagem estará nos aterros sanitários. Para contornar esses problemas estão sendo estudadas alternativas, como a reciclagem de produtos constituídos de plásticos e a substituição dos plásticos covencionais por biodegradáveis.
Os plásticos biodegradáveis são materiais que se degradam completamente ao ataque dos micróbios do meio ambiente. Os microorganimos , quando em contato com os plásticos biodegradáveis, secretam enzimas que quebram o material em segmento cada vez menores.
Um dos plásticos biodegradáveis mais promissores é o polihidroxibutirato (PHB). Ele é produzido por uma grande variedade de organismos, cuja função, basicamente, é substância de reserva. Isto quer dizer que, para diversos organismos, principalmente bactérias de solo, o PHB é sintetizado quando existe grande oferta de alimentos, em geral açúcar, gorduras e álcoois e consumido quando falta, da mesma forma que nós produzimos nossas “gordurinhas”. No Brasil, as experiências com o PHB, feito à partir da cana, estão adiantadas graças à descoberta de uma bactéria, Alcaligenes eutrophu, que superalimenta com açúcar, armazena energia na forma de resina plástica.
Em 1992, a Cooperativa dos Produtores de Cana, Açúcar e Álcool do Estado de São Paulo (Copersucar), o Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e o Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da Universidade de São Paulo (USP) estabeleceram um protocolo de cooperação técnica, com o propósito de desenvolver pesquisas para a produção de PHB. Em 1993, a Copersucar decidiu construir uma unidade piloto na Usina da Pedra, em Serrana (SP), para estudo e produção de PHB. Em 1995, esta unidade piloto entrou em operação. Em 1997, a Copersucar estabeleceu parceria com diversos processadores de plásticos e instituições, de pesquisa e desenvolvimento, no Brasil e no exterior, com o propósito de desenvolver aplicações comerciais do PHB e viabilizar sua produção comercial em larga escala. Neste ano, a Estrela lançou, na Feira Internacional de Brinquedos (Abrin), dois jogos, o Macaco Pula Pula e Morcegos Equilibristas, produzidos com plásticos biodegradável derivado da cana, desenvolvido pela Copersucar, pelo IPT e pelo ICB. O custo do plástico biodegradável é três vezes maior que o tradicional, mas ele não foi repassado para os consumidores. A maioria das empresas que investem em produtos com tecnologia têm como interesses principais estar à frente no desenvolvimento tecnológico e contribuir para a preservação do meio ambiente
Os campos de aplicação em desenvolvimento para PHB envolvem embalagens para defensivos agrícolas, vasilhames e filmes para alimentos, produtos injetados, tais como, brinquedos e material escolar, materiais descartáveis, tais como, pentes, escovas e barbeadores e embalagens para produtos de uso agrícola. Esse novo material dura mais de quatro anos em pratileiras e armários e leva menos de seis meses para se transformar em água e gás carbônico quando depositados em ambientes ricos em bactérias, como os aterros sanitários.
A Alemanha é uma das interessadas em utilizar a tecnologia do Brasil em plásticos biodegradáveis. O governo alemão tem um compromisso interno de substituir pelo menos 60% do plástico comum no país plástico biodegradável. Da Usina de Pedra em Serrana (SP) ja saíram os primeiros sacos de PHB para a Alemanha. O objetivo dos alemães é aliviar os aterros sanitários do enorme volume de plásticos de petróleo. Na Alemanha são consumidos 70 Kg de plástico por habitante/ano. No Brasil, essa quantia é de 15 Kg por habitante/ano.
Existe um investimento por parte de outros grupos de pesquisa em obter plástico biodegradável por outros meios. A PVD, empresa exportadora de cera como um substituto biodegradável do plástico. O pó de carnaúba e a fécula (goma) extraída da mandioca já produzem copos de plástico biodegradável. A Khel, empresa de São Carlos (SP), patenteou, no final de 97, um novo composto feito à base de óleo de mamona e amido que substitui o isopor tradicional.
A substituição do isopor, subproduto do petróleo, evitará o uso industrial do clorofluorcarbonato (CFC) que prejudica a camada de ozônio. O Centro de Raízes e Amidos Tropicais (Cerat), da Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, em Botucatu (SP), utiliza o amido e o farelo da mandioca na fabricação de pratos de isopor, papel e papelão para caixas de ovos. A embalagem de mandioca resiste de 10 a 15 dias na geladeira sem alterar suas características e, levada ao lixo, degrada-se em 30 dias.
Ao que parece, estamos caminhando para um futuro mais promissor com relação à questão do lixo. A divulgação científica no caso dos plásticos biodegradáveis se faz necessária e primordial não apenas no âmbito do desenvolvimento tecnológico e de parcerias que o Brasil pode estabelecer em nível mundial, mas como precursora na conscientização em relação à reciclagem do lixo e ao uso de matérias e recursos alternativos.

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