AGOSTO DE 2003



O Brasil não pode crescer, ou melhor, se crescer, a inflação volta

 Engº Antonio Guarino de Souza*

Este é o grande dilema nacional. Qualquer estímulo ao crescimento com taxas baixas de juros, recuperação dos salários a níveis decentes, investimento público (salvo nos casos que veremos) promoverá o retorno da inflação e o reinício do círculo perverso de 6 meses de alegria versus 6 anos de tristeza.

Em novembro de 94 publiquei, aqui mesmo no JP, uma extensa matéria alertando para o que chamei de “ Gargalos do Plano Real”, da qual extraio dois tópicos que continuam justificando aquele e esse títulos.

1º“A inelasticidade da oferta de energia elétrica, aço, metais não ferrosos, papel/celulose, petroquímicos, fertilizantes e químicos básicos, contrasta com a elasticidade da demanda desses insumos, a partir de pequenos estímulos de consumo de bens finais. Essa defasagem entre os prazos de alavancagem de projeto de produção dos insumos e sua rápida solicitação em cenário de crescimento de procura de produtos à sua jusante, conduzirá rapidamente a economia à retomada da escalada inflacionária.”

Atado ao acordo com o FMI, o governo não pode investir em insumos básicos e infra-estrutura, porque investir é gastar. Como o setor privado não se sensibiliza por demandas futuras ( haja vista a gritaria das “elétricas”com as sobras temporárias de energia não obstante a perspectiva de “Apagão”em 2007), estamos condenados a esgotar nossa capacidade instalada de produção dos insumos fundamentais ao desenvolvimento a um simples “soluço”de aumento de consumo.

2º“Impõe-se então às autoridades econômicas a necessidade de se congelarem as posições de cada agente econômico, ou seja: quem já consome não pode consumir mais e quem não consumia continuará excluído. O equilíbrio entre demanda e oferta terá que ser mantido rigidamente estável pela ponta do consumo pois o mercado externo é também fortemente comprador e a oferta interna é inelástica.”

Do que afirmamos há 9 anos no parágrafo acima pouca coisa se alterou. A retração da demanda no mercado interno está, em conseqüência, rigidamente atrelada ao impulso exportador, gerador de mega superávites, necessários ao equilíbrio das contas externas (especialmente o serviço da dívida e a remuneração do capital).

Para quebrar este ciclo vicioso faz-se primeira e urgentemente necessário reformular o acordo com o FMI de forma a permitir o investimento direto do governo em setores estratégicos: Energia - Siderurgia - Termoplásticos-Fertilizantes-Químicos Básicos-Papel e Celulose.

Um novo modelo participativo terá que ser criado. Entretanto, sem a intervenção direta e a decisão política do governo será difícil convencer os capitalistas nacionais e internacionais a apostarem no longo prazo e gerarem ociosidades momentâneas. Só o aumento da oferta nos salvará.

Regular a economia através do ajuste da demanda é o que se tem feito há décadas e o resultado tem sido sempre a estagnação.

Se a economia crescer com a base produtiva atual, não tenham dúvida - a inflação volta e como conseqüência teremos nova crise cambial, pois, os empresários preferirão atender a demanda interna inflacionando seus preços e os mega superávites comerciais externos irão para o brejo.

*Antonio Guarino de Souza é  industrial de plásticos - Plásticos Zarzur e ex-Presidente do Sebrae Nacional.


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