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DEZEMBRO DE 2002 |
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A MATURIDADE POLÍTICA DO BRASIL E O GRANDE DESAFIO
A expressiva maioria de votos que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva está se transformando em unanimidade à medida que se enunciam os nomes que formarão o novo governo. Adversários de ontem estão sendo chamados a realizar um esforço comum na difícil tarefa de formar consenso para superar aos desafios a serem enfrentados visando a correção de rumos. A atitude dos vitoriosos, dando uma trégua às críticas aos equívocos cometidos pelos detentores do poder que se eclipsa, está sendo correspondida com gestos de cooperação que revelam respeito aos seus sucessores porque conhecem na intimidade a natureza dos imensos desafios. O governo de Fernando Henrique Cardoso, ao encerrar seu mandato duplo, a 31 de dezembro, deixou uma herança preocupante em termos de fortes desequilíbrios de fluxo e estoque: não somente os conhecidos déficits gêmeos (balanço de pagamentos e contas públicas), mas também o passivo externo e a dívida pública. O retrocesso dos direitos sociais tem sido evidente nos últimos anos. A flexibilidade do mercado de trabalho e o aumento da violência são indicadores desse retrocesso. Ao mesmo tempo, no governo FHC constata-se uma brutal concentração de rendas, visto que a participação dos salários na renda reduziu-se de 32% em 1994 para 26% em 1999 (últimos dados disponíveis). FHC deixa, ainda, um exército de desempregados, o passivo externo e a dívida interna, a desestabilização macroeconômica, o desmonte do aparelho produtivo e da administração pública, a par de degradação institucional. Na classificação do Índice de Desenvolvimento Presidencial (IDP) elaborado pelo economista Reinaldo Gonçalves, é o último classificado entre os 24 Presidentes da República desde Campos Sales que governou de novembro do 1898 a novembro de 1902. O próximo governo começa com a tarefa de cumprir o maior ajuste de contas públicas da história. Terá que economizar R$ 39 bilhões em 2003, o necessário para bancar os juros da dívida pública. Somados ao esforço fiscal dos Estados e municípios, de R$ 9 bilhões, será uma economia de 3,75% do Produto Interno Bruto, exigido pelo Fundo Monetário Internacional, em troca do empréstimo de US$ 30 bilhões concedido ao governo brasileiro. A tarefa não será fácil. Com essa herança de mais de oito anos, vamos ter que conviver com restrições ao crescimento ainda por algum tempo. Será preciso muita paciência e moderação na cobrança de resultados. Não se deve esperar que Lula disponha de uma varinha mágica capaz de modificar a realidade a um simples toque. Seu governo vai ter que transigir, negociar, esperar, até que se fortaleça a convicção de que veio para mudar e recolocar a economia no rumo certo. O amadurecimento político que vem sendo revelado é um bom sintoma de que chegaremos lá. *Economista, foi Secretário Executivo do GEIA-Grupo Executivo da Indústria Automobilística durante o Governo JK.. |
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