JORNAL DE PLÁSTICOS - FEVEREIRO DE 2001


DAVOS E PORTO ALEGRE

SYDNEY A. LATINI


A realização simultânea do Forum Econômico Mundial de Davos e do Forum Social de Porto Alegre traz a baila estudo de Sérgio Paulo Rouanet, apresentado no Seminário Internacional “A Ética do Futuro”, realizado no Rio de Janeiro em julho de 1997.
A busca do diálogo parece ter sido a intenção dos promotores do Forum de Porto Alegre, para encontrar resposta à indagação cada vez mais persistente: “Seria a globalização irreversível, inevitável e totalmente feliz?”
A globalização – já advertia Rounet, em 1997 – elimina diferenças que deveriam ser mantidas; criam diferenças que não deveriam existir. Cria diferenças artificiais, de acordo com estratégias personalizadas de “marketing”. Respeita diferenças que não deveriam ser respeitadas, como as que se referem a certos regimes totalitários, sob a alegação de serem específicas de valores Asiáticos ou Islâmicos, para justificar a violação dos direitos humanos.
O Fundo Monetário Internacional (FMI), cujo ex-diretor geral adjunto, Stanley Fisher, admitiu, no seminário anual do Banco Central americano, realizado em agosto de 2000, em Kansas City, que “muitos dos ataques desfechados por adversários da globalização contra os governos, as grandes empresas e as instituições internacionais, são justificáveis”. No caso dos erros que o FMI reconheceu ter cometido na Indonésia, quem as consertará e indenizará as vítimas? Que critérios “científicos” estão por trás de decisões tão seguras e incontornáveis que dispensam um avaliação democrática?
Para contrastar com o processo de globalização em marcha, Rouanet propõe uma alternativa: a universalização. Enquanto os agentes do processo de globalização são as Diretoras Executivas das empresas e dos conglomerados, seus Presidentes e seus gerentes, os agentes da universalização são os artistas, intelectuais, organizações não governamentais e estados nacionais, representados por seus Parlamentos e governos democraticamente eleitos.
A globalização é impessoal e segue as Leis do mercado; a universalização é normativa e pressupõe o debate público e consenso político.
A globalização é a união de conglomerados; a universalização é a união de seres humanos. Somos “objetos” da globalização, e “sujeitos” da universalização.
Enquanto a globalização obedece somente à lógica da eficiência, ignorando as diferenças culturais – que, na melhor das hipóteses, são substituídas por diferenças orientadas pelo mercado – a universalização é um processo orientado por aqueles diretamente envolvidos, dentro de uma estrutura em que as diferenças são negociadas em vez de serem eliminadas por um processo autoritário de uniformização.
Para acelerar velocidade e coerência à universalização, seu processo deve basear-se em normas capazes de orientar e motivar seus atores: uma ética planetária.
O que se espera é que tanto Davos quanto Porto Alegre tenham sido orientados e motivados por uma ética planetária consensual.

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