FEVEREIRO DE 2002


NOVOS RUMOS PARA A ECONOMIA BRASILEIRA

Sydney A. Latini

Durante décadas a economia brasileira cresceu à taxa média de 7% a.a , surpreendendo o mundo, não obstante a convivência com uma persistente inflação que acabou atingindo níveis insuportáveis, que era imprescindível abater.

Com o Plano Real, partimos para o extremo oposto. Contivemos uma inflação galopante num prazo tão curto que também surpreendeu o mundo. Em compensação a economia nunca cresceu tão lentamente.

É preciso buscar o meio termo. Após o sucesso alcançado na estabilização dos preços, é urgente dispensar-se maior atenção à economia real e ao seu desenvolvimento.

Tal como aconteceu ao tempo do Plano de Metas, quando Juscelino conseguiu uma convergência entre técnicos nacionalistas e técnicos cosmopolitas, como gostava de classificar Roberto Campos, é oportuno, agora – quando o País se prepara para eleger novos governantes – criar condições para que técnicos desenvolvimentistas e técnicos monetaristas se entendam em torno de novo plano de ação, que congregue governo e iniciativa privada, não propriamente para abandonar o programa de estabilização e nem romper com o FMI, mas para definir estratégias nítidas visando à recuperação do desenvolvimento com estabilidade, sem abrir mão de nossa identidade cultural.

A abertura indiscriminada do mercado interno brasileiro à competição internacional sem limites – iniciada pelo governo Collor e aprofundada no atual governo – vista e entendida como inevitável pelo dogmatismo do pensamento único, gerou uma situação de desamparo em vários setores da indústria brasileira e também entre os trabalhadores. A partir de então, temos nos distanciado cada vez mais de qualquer modelo que possa indentificar-se com uma política industrial.

É possível obter uma inserção internacional adequada do país se o estado brasileiro tiver um planejamento estratégico que contemple uma visão sistêmica e holística do desenvolvimento sustentado, sendo imperativo considerar, no entanto, que num país como o Brasil, com grandes desigualdades regionais e econômicas, numerosa população e problemas sociais agudos, precisamos procurar soluções próprias para nossos problemas. Estas soluções podem, naturalmente, incorporar elementos provenientes da experiência de outros países, mas a adaptação não pode ser mecânica.

O reconhecimento de que em menos de setenta e cinco anos, depois de ter sido iniciada oficialmente, a disputa entre capitalismo e socialismo terminou com a vitória do capitalismo, não implica em admitir que venceu o estilo anglo-saxão (ou norte-americano) de capitalismo de absoluta submissão às forças do mercado.

Um projeto nacional para o século XXI requer a recuperação da importância do papel do estado na economia. Cabe definir de que forma a política econômica continuará a navegar entre os perigos da recessão, de um lado, e da hiperinflação e insolvência externa de outro lado, mediante a adoção de políticas públicas que contribuam para combater os desequilíbrios sociais e regionais. Tudo isso em meio à necessidade de definir nova fronteira de expansão para os próximos anos bem como garantir o pleno exercício da cidadania e da liberdade.

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