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A CRISE ARGENTINA E A POSTURA DO GOVERNO BRASILEIRO
Sydney A. Latini
Como um país que, nas primeiras décadas
do século passado, figurava entre as nações mais ricas (a sétima no critério
de renda per capita) saiu dos eixos de forma tão abrupta e espantosa?
A Argentina começa a pagar o preço de uma década de ilusão monetária. O fim
da paridade entre o peso e o dólar representa a volta ao bom senso e o abandono de uma mania de grandeza
que custou muito caro aos 36 milhões de argentinos que, em sua ampla maioria, vão ficar mais pobres.
A insistência em manter a taxa de câmbio supervalorizada serviu, durante certo tempo, para satisfazer
o ego nacional, iludido com o sucesso inicial da reforma monetária e a lei de conversibilidade de Domingo
Cavallo que conseguiu dominar a inflação, fazendo os índices de custo de vida caírem
de 5.000% para 10% ao ano. Mas foi só. De resto contribuiu para a total e completa desorganização
da economia.
A recessão abateu-se sem piedade nos últimos três anos. A taxa oficial de desemprego subiu
para 18%. Empresas e famílias se endividaram até a alma. Nos últimos meses, diante da iminência
da desvalorização do peso, ocorreu uma evasão de divisas de proporções colossais.
A camisa de força cambial quebrou a Argentina e os argentinos. E faltava coragem e determinação
política para desatar o nó. A Lei de Emergência Econômica permitiu ao país abandonar
o regime cambial fixo e passar a conviver com um dólar de valor flutuante em relação ao peso.
O Brasil, felizmente, agiu no tempo certo, com maturidade e eficiência, e sem se intimidar com críticas
oportunistas dos que acreditam que é possível corrigir grandes erros sem grandes sacrifícios.
O Brasil fez um duro ajuste, paralelo à desvalorização. Os argentinos não têm
condições de fazer o mesmo, pois estão há quatro anos em recessão. Além
disso, houve uma deterioração na governabilidade.
Que postura o governo brasileiro deve adotar, diante da crise argentina? A mesma da família que vê
a casa do vizinho pegando fogo. Oferecer toda a ajuda possível. É o momento de esquecer as rusgas
e as incompatibilidades, pensar somente em apagar o fogo e salvar o que for possível, até para evitar
que as labaredas nos atinjam.
É hora de lembrar que somos parceiros no Mercosul, com a responsabilidade de exercermos uma liderança
natural, por constituirmos o maior mercado no bloco. Uma atitude menos ativa poderia comprometer essa liderança
quando, ao contrário, a manifestação objetiva de solidariedade só contribuirá
para fortalecer nossa posição. Além do dever de solidariedade, estaremos defendendo nossos
próprios interesses.
Uma idéia já aventada, que deveria ser examinada com urgência, seria abrir linhas de crédito
ao governo argentino, via BNDES ou Banco do Brasil, garantidas com receitas provenientes, da venda de petróleo
ou trigo, por exemplo. Mecanismos inteligentes, como esse, colocariam o Brasil numa posição privilegiada,
quando a situação se normalizasse, contribuindo para aumentar muito sua fatia no mercado argentino
para a colocação de mercadorias brasileiras.
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