Embalagem promove democratização de tecnologias
e ascensão de marcas menores
Por Fábio Mestriner
Em meio a todas as conquistas da indústria de embalagem -
viabilização do consumo de alguns produtos em regiões remotas,
possibilidade de diversificação de produtos dentro de uma mesma
categoria, inovações que trazem maior proteção ou praticidade
no uso dos produtos, entre outras - a democratização do acesso
à produção de itens mais competitivos, por parte das pequenas
e médias indústrias, foi uma das mais significativas dos últimos
anos.
Um importante
exemplo deste processo no Brasil aconteceu em 1989 com a introdução
da garrafa PET para refrigerantes pela Coca-Cola. A queda do
preço da resina e a disseminação das tecnologias de injeção
e sopro da pré-fôrma facilitaram a entrada dos chamados “tubaineiros”
em um segmento, até então, reservado às grandes empresas.
Hoje, os
engarrafadores independentes têm mais de 35% do mercado e continuam
em franca expansão. Em hipótese alguma esta democratização da
embalagem e o conseqüente ganho de mercado das marcas menores
devem ser entendidos como canibalização do mercado. Ao contrário,
se considerarmos que a embalagem é a expressão do atributo do
produto, concluímos que uma boa embalagem incentiva a indústria
a melhorar as características e propriedades de seu produto.
Se a indústria não promover esta melhora intrínseca em seus
processos de fabricação, ingredientes, etc, nem a melhor embalagem
do mundo garantirá a fidelidade do cliente à marca; a compra
será única, pois o consumidor não enxergará benefício real na
recompra do produto.
Assim, pequenos
fabricantes de todo país, que, antes, não podiam competir no
mercado por falta de capital para investir em vasilhame retornável,
puderam entrar no mercado e melhorar seus produtos.
Na outra
pontaa, a indústria de primeira linha também se beneficia desta
democratização da embalagem. Ela significa maior agilidade no
lançamento de novos itens e na renovação dos existentes. Dentro
da dinâmica do capitalismo, sair à frente com lançamentos é
condição indiscutível para sobreviver competitivamente. E o
Brasil, felizmente, tem alguns exemplos de produtos que fizeram
ou fazem história. A cerveja Skol, por exemplo, foi a primeira
a utilizar uma lata metálica como embalagem; ela também foi
a primeira a substituir a lata de aço pela de alumínio e, hoje,
é líder entre as cervejas nacionais.
O Café do
Ponto é outro que está na vanguarda das novidades: se existe
um desenvolvimento no mercado de embalagens, adequado à sua
categoria de produto, certamente ele será o primeiro a candidatar-se
ao uso, pois tem sido assim há mais de dez anos.
Assim como
o laticínio Mococa, que foi o primeiro a lançar leite condensado
em embalagem asséptica cartonada, outras empresas nacionais
fizeram do diferencial de embalagem uma alavanca para seus negócios.
Estes são
exemplos claros de embalagens que agregam valor ao produto,
ou seja, que fazem com que o produto pareça valer muito mais
do que ele custa. No primeiro livro que escrevi - Design de
Embalagem, Curso Básico - digo claramente que “um produto com
design requintado e cheio de filigranas não parece apenas valer,
mas de fato ele vale mais, pois o design é um valor genuíno
que se incorpora ao produto e que não é percebido apenas como
um acessório adicional agradável”. A pesquisa recente realizada
pelo Comitê de Estudos Estratégicos da ABRE - Associação Brasileira
de Embalagem confirma esta tese, pois nela o consumidor afirma
claramente que, para ele, a embalagem e seu conteúdo consistem
em uma única entidade de valor.
Mas os desafios
da indústria de embalagem não se limitam à valorização das marcas
e dos produtos. Hoje, o grande tema que está sendo discutido
pelo setor em todo o mundo é a contribuição da embalagem na
redução das perdas de alimentos. Em países em desenvolvimento,
como o Brasil, as perdas no setor de hortifrutícolas podem atingir
cerca de 30% de toda a produção.
Esta, sem
dúvida, será uma das principais bandeiras da ABRE nos próximos
anos. Em parceria com as indústrias de alimentos e de embalagem,
com produtores e outras entidades correlatadas, ligadas direta
e indiretamente ao setor, esperamos criar uma política de desenvolvimento
de boas embalagens e de conscientização da importância de sua
utilização racional por empresas de todos os segmentos e de
todos os tamanhos.
Nós sabemos
que uma indústria que movimentou em 2003 mais de 23 bilhões
de reais, gerando mais de 160 mil empregos e, contribuiu decisivamente
para que o produto brasileiro de exportação chegasse ao seu
destino em perfeito estado e se apresentasse de forma competitiva
nos mercados para onde foram enviados, tem muito a contribuir
com o desenvolvimento do nosso país, mas acreditamos que nossa
maior contribuição é promover a democratização da produção,
permitindo que as pequenas e médias empresas possam oferecer
a seus produtos embalagens competitivas que as ajudem a progredir
no mercado.
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