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Janeiro de 2006 |
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Em 45 anos, Mecalor refaz os passos da industrialização brasileiraPara quem conhece a Mecalor de hoje, uma empresa moderna e altamente tecnológica, não imagina toda uma história que foi construída ao longo de 45 anos e que tem início com a vinda de Sandor Szego e de sua família ao Brasil, na época do governo de Juscelino Kubitschek. A trajetória da Mecalor conta um pequeno, mas ilustrativo trecho da industrialização brasileira. É essa história que a Mecalor quer resgatar na comemoração de seus 45 anos. Sandor chega ao Brasil em 1957, refugiado da Hungria, após a invasão do país pela União Soviética. Durante algumas semanas, as fronteiras ficaram livres e mais de 200 mil pessoas deixaram o país, para várias partes do mundo, com o sonho de encontrar um novo mundo, mais livre. Com a esposa Mariane e dois filhos, Janos, com sete, e Thomas, com dois anos, eles percorreram uma duríssima jornada antes de chegar ao Brasil, mas com os sonhos intactos. A escolha pelo Brasil veio naturalmente, pois o seu sogro já havia emigrado ao país em 1949. Alguns dias após a sua chegada a São Paulo, Sandor conseguiu um emprego na Arno. Mesmo sem falar a língua, sua formação de engenheiro foi um passaporte para a conquista de melhores cargos. “Desde o início, porém, o meu sonho era trabalhar por conta própria, quando surgiu a oportunidade, quatro anos depois”, conta Sandor. “Minha especialidade na Hungria era na área de fornos siderúrgicos e engenharia mecânica, daí surgiu o nome Me-ca-lor. Logo depois, porém, percebi que, por se tratar de um país tropical, havia mais oportunidades em refrigeração”. Em 1960, Sandor começou com uma oficina ainda sem um local certo, e logo depois, abriu com um amigo uma pequena loja de produtos de refrigeração na avenida São João, 2.097. Sua esposa, Mariane, desde o início tomou parte no empreendimento nascente: tomava conta da loja de 40 m² enquanto Sandor ainda trabalhava como engenheiro. “Saí da Arno em agosto de 1961, quando o Jânio Quadros renunciou à presidência. Esse fato tem importância porque deixei um emprego com renda fixa e constante para começar um negócio por conta própria bem no momento em que o Brasil inteiro parou por duas semanas, uma dificuldade incalculável. O fato é que sobrevivemos. Era o início da industrialização brasileira, com a instalação do parque automobilístico em princípios da década de 60. Praticamente tudo era importado. Então, quem começou a fabricar alguma coisa naquela época encontrou imensas oportunidades. Daí nasceu a Mecalor, esta empresa que cresceu aos poucos, solidamente, e comemora hoje 45 anos.” Desde o início, além da venda de peças de refrigeração, a empresa também montava os equipamentos. Hoje, a Mecalor é focada no segmento industrial. Mas, na época, a produção era destinada principalmente ao comércio, fornecendo balcões frigorificados para padarias, açougues, quiosques, e mais tarde, em shoppings. Também atuou na instalação de câmaras frigoríficas para restaurantes industriais, hospitais e bancos de sangue. A nascente indústria do plástico Uma grande mudança começa a acontecer na Mecalor ainda no início dos anos 60, quando surgiu a oportunidade de abastecer firmas de plásticos, uma indústria que nascia no Brasil, com equipamentos de água gelada, que ainda não existiam no país. “Produzimos um equipamento bem simples para a fabricante de brinquedos Atma, e vendemos algumas unidades. Foi uma destas cinco primeiras máquinas que recuperamos e colocamos em exposição na Brasilplast 2005. Há ainda alguns modelos desse tipo em funcionamento”, conta Sandor. A máquina de água gelada foi evoluindo; foram feitos alguns melhoramentos, e era capaz de funcionar em qualquer ambiente, uma característica importante naquele tempo em que as condições das indústrias eram inimagináveis para os padrões atuais. “Essa máquina marcou a mudança de filosofia da Mecalor em desenvolver uma idéia própria, não apenas em reproduzir o que todos faziam”, afirma ele. O início da Indústria Mecalor A essa altura, a Mecalor havia se mudado para uma loja de 500 m² na rua General Júlio Marcondes Salgado, onde também eram montados os equipamentos, inclusive os de água gelada. Por volta de 1965, Sandor sentiu a necessidade de exercer um maior controle sobre a fabricação, para que pudessem diversificar a linha de produtos, fase que teve início com uma linha de geladeiras domésticas embutidas de grande porte para casas de luxo em São Paulo e no litoral, período em que começaram a elevar a produção da empresa. Apesar de não ter se tornado um produto que perdura até hoje, foi um passo importante, porque marcou o princípio da indústria Mecalor, já em novas instalações, em Guarulhos (SP), com cinco funcionários. Era na realidade uma pequena oficina, com marcenaria e funilaria, pois a estrutura das geladeiras e balcões era constituída predominantemente de madeira, e internamente, de chapa de aço. Em 1970, um pedido de uma câmara frigorífica de 22 m de comprimento para peixe congelado levou a Mecalor a uma nova mudança, desta vez para o Parque Novo Mundo, onde está até hoje. A fábrica do Parque Novo Mundo Na nova localização, espaço não faltava: eram mais de 1.000 m2 de área de produção. O crescimento foi se dando por etapas. A Mecalor conquistou alguns negócios excepcionais, nesse período, como a montagem de câmaras frigoríficas e balcões dos restaurantes e lanchonetes da fábrica da Ford, em São Bernardo (SP). Segundo Sandor, “em grande parte, por ter conseguido estabelecer um nome no mercado, baseado em confiabilidade, pontualidade, qualidade e assistência técnica. Hoje, estas são qualidades indispensáveis a qualquer empresa, mas, na época, poucas eram as que davam importância a essas questões; muitas firmas desapareceram por este motivo”. Necessidade de mudanças A Mecalor manteve o seu ritmo, até 1986, crescendo aos poucos, mantendo sua variada linha comercial e a industrial, com os equipamentos de água gelada. Aumentamos o número de funcionários, contratamos engenheiros, o espaço começou a ficar reduzido”, conta Sandor. Em 1986, com o plano Cruzado, o sistema de produção do país é posto em cheque.. “Para a Mecalor, houve um crescimento como nunca houvera antes, e que esperamos não venha a se repetir, porque foi muito rápido, desordenado, e, é claro, insustentável, tanto é que o país passou por mais 15 anos de dificuldades econômicas por causa do plano Cruzado.” A empresa começou a necessitar de uma melhor distribuição de espaço e de melhorias na indústria. Foi o momento em que o empresário começou a delinear um salto de qualidade na fábrica, com a construção de um novo galpão, em 1987. De lá para cá, toda a estrutura foi modificada. “Foi nessa época que chamei o meu filho Janos para trabalhar por um mês na empresa - ele estava de férias -, e fazer um novo layout da firma. Pois esse mês, em julho de 1987, se prolonga até hoje”. Uma guinada na carreira e muitos desafios “Descobri que não era possível fazer o layout da fábrica, sem definir primeiro em que direção a empresa queria caminhar a médio e longo prazos”, conta Janos Szego, na época, engenheiro na Promon, uma empresa de engenharia voltada para a construção de usinas hidrelétricas, siderúrgicas e projetos de grande porte. Na fábrica, de 70% a 80% das atividades ainda eram de marcenaria; significava muito pó de serragem, apenas para dar um exemplo. “Além disso, a quantidade de pedidos, por conta do plano Cruzado, era grande, sem que houvesse nenhum tipo de controle”. Então, do objetivo muito bem definido de trabalhar por um mês com o pai para pagar a compra de seu primeiro computador, que havia custado a pequena fortuna de três mil dólares, Janos resolveu encarar uma nova etapa em sua vida: deixou a empresa de 3.000 engenheiros e projetistas para ajudar no desenvolvimento de uma empresa pequena com grandes problemas e enormes desafios. Janos levou o computador para a fábrica, que ficou trancafiado em uma sala, por muitos anos. “Meu pai dizia que a fábrica funcionava muito bem sem ele.” O que mostra um pouco como a evolução e a modernização vieram muito rápido no início da década de 90. Nesta época, já havia a semente de um departamento de engenharia, que começou com o Eng. Raul, hoje Diretor Industrial, e, hoje, conta com 20 engenheiros. “Começamos a fazer projetos especiais de câmaras climáticas, mas o processo era o inverso: produzíamos o equipamento como se fosse uma obra de arte, e uma vez terminado, fazíamos o desenho daquilo que estava pronto, para os clientes mais exigentes. Assim começou o nosso departamento de engenharia.” Estamos no início dos anos 90 e o país vivia uma forte recessão. “O mercado estava muito fraco e, na Mecalor, ainda vigorava a política de fazer o que o cliente comprasse. Não existia um foco estratégico. Isso nos forçou a pensar em como focar o tipo de produto, o cliente que queríamos atingir e a pensar no planejamento em longo prazo”, explica Janos. Foi quando começaram a se delinear as primeiras idéias que se transformariam na Mecalor de hoje. A empresa começou a se concentrar principalmente nos sistemas de água gelada, no início, com dois modelos, e nas linhas de câmaras climáticas. Hoje são cerca de 12 modelos de sistemas de água gelada, com variações na configuração, o que eleva o portfólio para mais de 50 modelos. Uma empresa preparada para o futuro Desde então, a Mecalor começou a passar por grandes mudanças. Uma das mais significativas está sendo a informatização. “Estamos finalizando um grande projeto de informatização, que vai integrar todos os processos da empresa, tanto na parte administrativa como na área de produção, que deve ser concluído em dezembro de 2005, e fará a informação fluir de forma muito mais rápida e precisa”. Outro passo que a Mecalor está empreendendo de uma maneira cautelosa é a terceirização do maior número de processos da produção, porém sem perder na fábrica a capacidade de produzir praticamente tudo. “Se por algum motivo um de nossos fornecedores não puder atender as nossas necessidades, podemos fabricar o item internamente até desenvolver um novo fornecedor. A terceirização nos possibilita elevar a produção sem a necessidade de expandir a empresa, contratar mais pessoas ou aumentar os custos fixos”, afirma Janos. Uma etapa importante foi a implantação da ISO 9001 no final de 1997 e, em 2003, da versão ISO 9000: 2000. “Esta conquista foi marcante porque representa o início de uma nova fase de grande preocupação com a qualidade. Acreditamos hoje que qualidade e custo não andam em sentidos opostos. A empresa faz mensalmente reunião em que apresenta uma análise de todos os indicadores de qualidade, vendas e o que chama de custo da não-qualidade, que são todos aqueles pontos que poderiam ter sido mais bem planejados para evitar o desperdício, e que são monitorados, para se buscar novas soluções e melhorias”. A face visível da evolução está no aumento da produtividade. “Durante o plano Cruzado, atingimos o recorde de fabricar 10 máquinas em um mês, com 132 pessoas. Hoje temos em torno de 94 pessoas e, no início deste ano, fabricamos 100 máquinas em um mês, demonstrando um enorme ganho de produtividade”. Janos sintetiza: “Talvez o fator mais importante para que a Mecalor chegasse ao que é hoje seja a confiabilidade conquistada pela empresa desde a sua fundação, e reforçada cada vez mais. Nossa principal diferença não está apenas na máquina. Está na reputação de confiança, que tem origem principalmente em nossa preocupação de estar no foco do cliente, ou seja, de ser capaz de ver a situação através dos seus olhos e oferecer uma solução que ele com certeza aprovaria. Outra grande área de atenção é o pós-venda. Nem sempre tudo dá certo. Mas, quando temos problemas, vamos até o fim para resolvê-los. Com um bom atendimento, o cliente representa sempre um foco de satisfação que se estende por todo o mercado. Essa é uma preocupação que está disseminada por toda a fábrica”. Entre os planos da empresa para os próximos cinco anos está aumentar as exportações para a América Latina, e ampliar e renovar sua linha de produtos, com ênfase especial para a produtividade e a qualidade. “A cada ponto conquistado na qualidade conseguimos, não só melhorar a nossa imagem diante do cliente, mas também obtemos uma redução de custo significativa, o que nos torna mais competitivos e rentáveis. Aí está o grande desafio de hoje, a rentabilidade. O mercado brasileiro é muito consciente de preço, mas do preço no primeiro momento, não do preço ao longo da vida útil do equipamento”. Outro ponto a que a empresa dedica especial atenção é o trabalho realizado junto aos seus parceiros. “Nós temos uma grande quantidade de parceiros entre os fabricantes de máquinas para plásticos, que usam os nossos equipamentos como periféricos. Na Brasilplast, a Mecalor instalou dezenas de equipamentos nos estandes de seus parceiros. Acreditamos muito nessa linha de parceria, que também está entre nossas prioridades.” Não podem ser esquecidos os investimentos na formação do pessoal, inclusive do chão de fábrica, e a criação de inúmeras oportunidades de treinamento, o aprimoramento do programa de melhoria contínua, entre outras iniciativas. Essa comemoração dos 45 anos da Mecalor reúne duas gerações de empreendedores, cada qual com seus desafios e vitórias, que começou com um sonho de liberdade e hoje constrói o seu futuro. |
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