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O CARRO À ÁLCOOL:
UMA VITÓRIA DA TECNOLOGIA BRASILEIRA
Sydney A. Latini
Em 1973 o petróleo passou de US$ 3,00 para US$
11,00 o barril, provocando radical modificação no balanço de pagamentos do Brasil. Entre 1973
e 1974 nossas importações aumentaram de US$ 6,2 bilhões para US$ 12,6 bilhões. O déficit
do comércio exterior mais a conta de serviços tornaram-se preocupantes, com combustível e
lubrificantes alcançando 30% das importações FOB, em 1974.
Nessas circunstâncias, foi num dramático discurso, a 9 de outubro de 1975, que o presidente Ernesto
Geisel anunciou ao País a criação do Programa Nacional do Álcool – PROALCOOL – destinado
a estimular o aumento de produção desse combustível, para reduzir ou até mesmo substituir
o consumo de gasolina, na eventualidade da crise de suprimento de petróleo.
Após o segundo choque do petróleo, em 1975, as importações de combustíveis e
lubrificantes chegaram a comprometer 50% do total de importações em 1983. A produção
de álcool evoluiu rapidamente; em 1975 produziram-se 3,2 milhões de barris, em 1978, esse total havia
aumentado para 14,3 milhões; a partir daí, com a ativação do PROALCOOL, chegou-se a
52 milhões de barris, isto é, a 140.000 barris/dia, em 1984.
O Brasil foi pioneiro na produção em escala industrial de veículos movidos a álcool,
sua grande vitória na busca de alternativas para o petróleo. De 1983 a 1988 a produção
de autoveículos a álcool superou 50% do total produzido no País (em 1983 atingiu 66,1% do
total). Por falta de uma política coerente com a grande potencialidade do setor álcool-químico,
a fabricação de carros a álcool decresceu substancialmente a partir de 1990. O álcool
passou a ser usado para incrementar a octanagem da gasolina, numa mistura de 22% em volume de álcool anidro.
Segundo o relato de autorizados analistas do setor, até o ano 2014 uma boa parte do petróleo extraído
de modo convencional estará esgotada, e a prospecção ficará cada vez mais dispendiosa.
Os enormes custos de investimentos em bacias petrolíferas recém-descobertas e ainda a serem exploradas
(como por exemplo a região do mar Cáspio) afetarão os preços do petróleo de
modo semelhante aos custos para uma possível prospecção petrolífera em outras regiões
do mundo já incapazes de jorrarem com tanta generosidade, como nos estados do Golfo Pérsico, no Oriente
Médio, porque o petróleo há de ser primeiro custosamente separado das areias e da pedraria.
Até agora, foram baldadas as buscas de um substituto econômicamente viável para substituir,
em grande escala, as fontes energéticas fósseis. Vultosos investimentos vêm sendo realizados
pelos maiores fabricantes de automóveis do mundo no sentido de desenvolver a tecnologia da célula
de hidrogênio combustível (“fuel cell”), com o objetivo de utilizá-la num sistema de propulsão
que aposentaria o tradicional motor de combustão interna. O fator crítico é o custo, muito
elevado, admitindo-se que ainda há um longo caminho a percorrer para reduzi-lo a níveis compatíveis
com as possibilidades do mercado.
Uma alternativa viável, a curto prazo, para substituir o petróleo, como fonte energética nos
motores de combustão interna usados nos veículos automóveis é o álcool.
Quando o suprimento de petróleo voltar a escassear e, conseqüêntemente, os preços subirem,
a experiência brasileira na fabricação de carros a álcool não deixará
de ser considerada, não obstante os vultosos investimentos em curso para desenvolver a sofisticada tecnologia
da célula de hidrogênio combustível.
A experiência do PROALCOOL já vem inspirando, aliás, vários países que, como
o Brasil, decidiu investir para desenvolver uma fonte alternativa de combustível.
Os Estados Unidos produziram no ano passado 6,7 bilhões de litros de álcool de milho, que custa 40%
mais que o de cana-de-açucar. O objetivo é misturar 10% à gasolina e, assim, reduzir emissões
de poluentes.
A China aprovou uma lei que também prevê a mistura de 10% e tem metas ambiciosas, de produzir, em
3 anos, 6 bilhões de litros, o equivalente a metade do que o Brasil produz hoje.
A Índia e a África do Sul também aprovaram leis para poder adicionar 5% do álcool de
cana no combustível. A França aprovou um projeto para produzir álcool de trigo e beterraba
e a Suécia a partir de madeira, batata e cereais, para ativar a gasolina, assim como a Austrália
e a Tailândia, que o fazem a partir da moagem de cana-de-açucar.
Com todo esse interesse, exportar álcool passou a ser uma boa alternativa para o Brasil.
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