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SEMPRE gostei de teatro.
TALVEZ POR ISSO, ignorando as duas línguas da moda - o economês e o administrês - tento compreender
o inusitado da atual situação por que passa o nosso tão amado país, recorrendo aos
valiosos ensinamentos que nos legaram dois dos mais consagrados autores teatrais de todos os tempos: Ionesco e
Shakespeare.
DE FATO, como explicar o intrincado paradoxo observado nas declarações do governo no que tange à
decantada “crise de energia” recém (sic) - descoberta?
TOMANDO-SE POR BASE a retórica governamental, podemos discernir dois elementos recorrentes em seu discurso:
por um lado, numa versão atualizada e revista do “mito das calmarias”, aponta-se a estiagem como responsável
pelo caos em que nos encontramos (ou nos perdemos...) em termos de produção de energia no país;
por outro, apela-se para o desconhecimento da “verdade” para justificar-se a inoperância - para não
dizer omissão - principalmente no que se refere a medidas preventivas, tais como desenvolvimento paralelo
de outras fontes produtoras de energia, uma vez que o nosso país é abençoado, não só
no que concerne à hidrografia, mas também à considerável riqueza eólica e solar.
RECONHECENDO, entrementes, uma vez mais, minha ignorância em relação à administração
nacional, quer-me parecer que nenhum dos dois elementos supra - citados pode servir de argumento para explicar
o atual problema , pois não é concebível que um país - principalmente, um país
com as dimensões do nosso - esteja apoiado unicamente nas conjunções climáticas e atmosféricas
- ou na benevolência de São Pedro, por mais crente que seja a sua população. Além
disso, e já que nos referimos à s “calmarias”, como diria meu pai com seu indefectível sotaque
lusitano, “quem não tem competência não se estabelece”... Isto é, aqueles que se encontram
à frente de um governo não podem aludir ignorância de fatos, sobretudo em se tratando de questão
que, mais do que bem-estar, diz respeito à segurança e ao próprio funcionamento do país!
NO ENTANTO, para surpresa de todos, a julgar pelas declarações feitas a esse propósito, no
desespero de impedir o golpe de misericórdia - no caso, os “apagões” - em vez dos governantes dirigirem
ao povo, junto, naturalmente, a um esperado e imprescindível mea culpa, duas súplicas: a do perdão
pelos atos (ou pela falta de...) cometidos e a da compreensão no sentido dos novos sacrifícios do
povo necessários ao restabelecimento das condições básicas de vida dentro do país,
o que se verifica é a arrogância e a intransigência administrativas a “exigir” da população,
não só uma considerável diminuição no emprego de energia elétrica, mas
a aceitação de uma “sobretaxa” - cognome de multa - para os incautos que ultrapassarem o arbitrário
número de quilowatts estipulado para consumo. Mas não é tudo: somos formalmente ameaçados
com outras igualmente arbitrárias multas (essas, sem apelido...) e até mesmo “cortes fulminantes”
de fornecimento de energia em casos de “reincidência de erro”!
SOB O IMPACTO da notícia, previ a revolta da população reivindicando, nas ruas, seus direitos,
apoiada pela imprensa e órgãos de proteção ao cidadão e ao consumidor... Com
grande espanto, no entanto, para onde quer que volte meus olhos e ouvidos, só encontro o aval pacífico
de um povo pronto a seguir os novos ditames governamentais - estejam esses pautados ou não nos princípios
dos Direitos Humanos, do cidadão, ou, em última instância, nos do consumidor...
DIANTE DE TAL PARADOXO que beira o disparate, releio uma das peças-chaves de Ionesco, Rinocerontes, e me
pergunto se o grande mestre do Teatro do Absurdo não teria antevisto justamente essa cena do Brasil (ex-em-vias-de-desenvolvimento)
de hoje, ao escrever um texto em que todas as pessoas de um país, por ordens superiores, estão se
tornando ... rinocerontes!
PRESTES A ME TORNAR um rinoceronte, por minha vez, desalentada em meio aos cálculos que doravante terei
que fazer antes de me decidir entre o banho quente ou a lavagem de roupa na máquina, contemplo o apêndice
duro e recurvo que guarnece a fronte de certos animais e que tenho entre as mãos e, tomando de empréstimo
a Shakespeare a fala de seu legendário Hamlet, repito a angustiante pergunta: Rinoceronte ou não
rinoceronte? Eis a questão...
Stela Maria Chagas de Moraes
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