JORNAL DE PLÁSTICOS - MAIO DE 2001


O SETOR PLÁSTICO ESTÁ DE LUTO:
FALECEU MIGUEL IGNÁCIO PEREIRA

Dia 08/05/2001 ficará dolorosamente marcado para todos nós que militamos nos plásticos como o dia em que nos deixou uma de suas figuras mais marcantes - MIGUEL IGNÁCIO PEREIRA - que faleceu, aos 77 anos, em São Paulo.
Para a direção do JORNAL DE PLÁSTICOS e, em especial, para seu Diretor Fundador, Ataliba Belleza Chagas, a perda representou muito mais pois considerava Miguel era como a um irmão.
Em homenagem a esta grande figura ( em todos os sentidos, inclusive fisicamente) e, para conhecimento daqueles que porventura não tiveram a oportunidade de com ele conviver, estamos publicanfo trechos do editorial do JORNAL DE PLÁSTICOS de fevereiro/1988 no qual o jornalista Ataliba Belleza Chagas retratou, como melhor ninguém faria, o Homem, o Vendedor, o Empresário, enfim, uma das maiores personalidades dos plásticos do Brasil dos últimos 50 anos:

A repercussão do editorial de fevereiro/88 foi enorme: várias lideranças dos plásticos, à época, cumprimentaram o JP pelo artigo. O ápice desse reconhecimento veio através da escolha de Miguel Ignácio Pereira para receber a “Macromolécula de Ouro”, distinção anual, outorgada pelo SIMPERJ-Sindicato das Indústrias Plásticas do RJ, como uma das personalidades que se destacaram, naquele ano, no setor.
Na foto, Miguel Ignácio Pereira é agraciado pelo Pres. do Simperj, Gilberto Jaramillo, sendo observado, à direita, pelo Diretor do JORNAL DE PLÁSTICOS, Ataliba Belleza Chagas.

O “GIGANTE” DOS LAMINADOS VINÍLICOS DO BRASIL

- “KIFAER!” (Como vai?) - assim, dirigindo-se aos lojistas, adentrava pelas bem estruturadas lojas de atacado e revenda da rua 25 de Março, em São Paulo, o grandalhão vendedor de laminados plásticos de PVC, cumprimentando a todos, porteiros, balconistas e proprietários da dinâmica e atuante “capital” das vendas de tecidos e armarinhos de nosso País.

- “COMO VAI, MIGUÉ?”, respondiam os armênios, árabes, sírios, libaneses e outros filhos adotivos do Brasil, que compunham o enorme aglomerado de lojistas da famosa rua da capital paulista, centro convergente de compradores de todas as partes do país - mas, também, do exterior - notadamente, do interior de São Paulo; sobretudo os “mascates”, que buscavam também os mais variados atacadistas localizados nas ruas adjacentes à exuberante 25 de Março.

ALI, o grande Miguel Ignácio Pereira concentrava sua atividade de vendedor, em constante peregrinação, chovesse ou fizesse sol. E tal era sua atuação, que não havia naquela região, bem como na dos “capoteiros”, quem não conhecesse o arguto vendedor dos laminados plásticos de PVC da Vulcan.

CONHECI o Monta - apelido carinhoso dos tempos em que também se destacava nos meios esportivos, particularmente, no basquete do Sírio - pelos idos de 1952/1953, atrás de um balcão, em um sobrado da rua Jorge Azem, quando dirigia a Lídice - empresa manufatureira de artigos plásticos (“soldados”) e que ali estava sediada. Era eu, à época, correspondente de uma revista do Rio para a qual viera buscar propaganda. Dada a sinceridade com que pleiteei a publicidade, Miguel me propôs: “Quando você deixar essa revista, venha trabalhar comigo.” Foi o que aconteceu dois anos depois e poucos puderam testemunhar minha trajetória de trabalho e vida como o senhor Miguel Ignácio Pereira.

NESSE ÍNTERIM, no entanto, juntamente com o admirável José Maria, seu irmão, acolheu-me naquele mesmo endereço, como a um velho amigo, para que pudesse estabelecer em São Paulo um ponto de referência para quem desejasse contatar a citada revista.

ACOMPANHEI, por meu lado, sua longa jornada a serviço do PVC e filmes.

NÃO FOI FÁCIL o caminho, senhores que vivem a atual era de glórias da petroquímica e do plástico do Brasil. Não foi simples introduzir o odor dos laminados vinílicos em meio ao aroma exalado pelas lojas de revenda de tecidos, sabonetes e couro. Vender plástico, insistimos, foi tarefa das mais arrojadas. Colocar, nas lojas, estantes com rolos de plásticos foi a comprovação da inequívoca tenacidade e força de Miguel que soube, como poucos, não apenas convencer mas, principalmente, vencer um comportamento arraigado de costumes tradicionais. De fato, havia uma aversão ao “toque” frio e impermeável das “bugigangas plásticas” e os conservadores abusavam do direito de defender o tecido e o couro. Esses, entretanto, viriam finalmente a ceder uma fatia do mercado aos plásticos em que Miguel tanto acreditava e por que lutava.

CONSEGUIR que os lojistas abrissem um espaço à entrada de suas casas comercias para instalar uma estante com rolos de plásticos foi uma verdadeira “África” - e essa foi mais uma das artimanhas do ardiloso vendedor que, além de exibir seus produtos para o público em trânsito pelas calçadas, podia, de dentro de seu carro, “checar” os estoques das prateleiras expostas e promover suas vendas, imediatamente, até através do telefone.

QUANTAS VEZES vimos o Miguel sobraçando rolos de plásticos para atender aos clientes, estabelecendo trocas constantes entre os que dispunham e os que precisavam da mercadoria. Dessa árdua luta, todos os fabricantes de plásticos tiravam vantagens, e a concorrência o que fazia era tentar acompanhar as pegadas do Miguel.

VIERAM DEPOIS as toalhas, uma das paixões do Monta. Foi ele, inegavelmente, quem introduziu esse artigo em São Paulo, posteriormente disseminado por todo o país. Seus mostruários eram grossos e, até nisso, Miguel era privilegiado; com sua avantajada mão segurava e transportava mais do que qualquer um o que desejava vender - sua obsessão depois do basquete.

ASSIM PASSAVAM-SE os dias que, para Miguel, encerravam-se lá pelas 8, 9 horas da noite, quando ia jantar com um cliente, um vendedor, ou representante do interior, à época em que era Gerente da Vulcan em São Paulo.

HÁ MUITO o que falar sobre o Miguel da firma PVC, na York e outras empresas até tornar-se o mestre dos plásticos laminados.

UMA COISA não podemos deixar de comentar: Miguel tinha de memória o estoque mínimo de cada artigo de cliente. Sabia quanto havia sido vendido e, quando o pedido não era feito, tomava a iniciativa de fazê-lo, provocando “cada bode” - mas sempre superado com sua “lábia”, pela venda da mercadoria.

SEU CARRO, muitas vezes novo, era mais um utilitário do que um carro de passeio. Sobre todos os bancos, encontravam-se rolos de plásticos e caixas de toalhas, sem contar o porta-malas onde também havia brindes que tinha, por hábito, distribuir aos clientes, principalmente às secretárias, pois, queria agradá-las para ter melhor acesso aos “chefes”.

ENTUSIASTA DOS PLÁSTICOS, não perdia a oportunidade de promover seus produtos e, graças a seu empenho, a Vulcan compareceu à 1a Feira de Plásticos que São Paulo realizou no Ibirapuera. Mantinha estreito contato com os jornalistas, homens de rádio e, posteriormente, televisão, os quais presenteava com plásticos, buscando o máximo de divulgação.

PARTICIPOU da luta de fabricação de tubos plásticos, chegando também a se tornar fabricante dos sapatos Melodia, acompanhando a moda.

NÃO PAROU por aí sua fixação nos laminados; trabalhou como vendedor de extrusoras, vindo posteriormente a se tornar fabricante de uma das mais famosas máquinas de impressão de plásticos da América Latina - Thunder Comat.

REVENDO essas anotações, concluí que tudo o que foi dito desse grande personagem é apenas um capítulo da história de Miguel Ignácio Pereira e, conseqüentemente, da Indústria Plástica do Brasil, pois, trata-se não do empresário que viveu dos resultados positivos da petroquímica, dos plásticos e suas máquinas, mas, sim daquele que levantou, ergueu o mercado de plásticos no Brasil.

A HORA é, pois, de enaltecer-se a memorável e importante figura que serviu ao colosso petroquímico/plástico de nosso País, o internacional e vitorioso empresário, o querido amigo, MIGUEL IGNÁCIO PEREIRA.

Miguel, em sua longa trajetória nos plásticos, teve, também, participação destacada como dirigente de entidades empresariais sendo, inclusive, um dos fundadores da ABFLEXO-Associação Brasileira de Flexografia.
Na foto de junho/1989, tirada por ocasião da posse da diretoria do então DNMAIP-Departamento Nacional de Máquinas para Indústria do Plástico, vêem-se, da esquerda para direita, os senhores: José Daniel Ebel, Paolo de Fillippis, Luiz Carlos Delben Leite, Aldo Ciola (Presidente), Márcio A. T. Ribaldo e Miguel Ignácio Pereira.

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