MAIO DE 2002


INVENÇÃO E INOVAÇÃO TECNOLÓGICA:
UMA RECEITA DE SUCESSO

Sydney A. Latini

Com muitos recursos naturais e um grande potencial intrínseco de crescimento, o Brasil estava, há 20 ou 30 anos, em situação melhor do que a Coréia do Sul. No entanto, enquanto o PIB coreano no ano 2000, após a crise asiática de 1977, ultrapassou o patamar dos US$ 600 bilhões desbancando-nos da décima posição no ”ranking” mundial e a renda per capita superou os US$ 13 mil, uma das mais altas entre os países emergentes, o PIB da Coréia cresceu quatro vezes e nosso PIB aumentou apenas 50% nos últimos 20 anos, aumentando ainda mais a distância em relação as países mais desenvolvidos. Qual a receita do sucesso?

Entre os diversos fatores que explicam o impressionante desempenho da economia daquele “tigre asiático” destaca-se o seu programa de desenvolvimento tecnológico como tração do seu crescimento.

A situação dos dispêndios em pesquisa e desenvolvimento (P&D) na Coréia de 1970, pouco após iniciar o seu programa de desenvolvimento tecnológico, era bastante semelhante à que o nosso país tinha então, ou seja, uma participação muito pequena do setor produtivo, cerca de apenas 12% a 13% lá e talvez 10% aqui. Entretanto, a opção coreana de política de pesquisa foi muito diferente da nossa. Ao invés de investir os poucos recursos de que dispunha na criação de uma ampla pós-graduação, como nós o fizemos sob a influência do modelo americano, a Coréia investiu na formação de institutos de pesquisa, o primeiro criado em 1967, como suporte direto às pesquisas do setor produtivo empresarial, mas financiado essencialmente com recursos públicos.

O resultado é evidente. Aos poucos, na medida em que as próprias inovações geradas produziam retorno pelo aumento da criatividade e a conquista de marcado, o setor produtivo foi assumindo o papel de executor das pesquisas e do seu financiamento, e a sua participação se aproxima dos 75%, isto é, do perfil típico dos países já desenvolvidos.

Como o nosso dispêndio em P&D é dirigido essencialmente para a área acadêmica, o paradigma da nossa pesquisa, naturalmente, é a publicação de artigos, que constitui-se em uma transferência gradativa de conhecimentos para países aptos a utilizá-los para ainda melhor competir com a nossa economia. Para se gerar as inovações tecnológicas de que nossa indústria necessita para ser internacionalmente competitiva, precisamos direcionar o esforço da sociedade em dispêndio em P&D para apoiar o processo de geração de inovações no próprio setor produtivo. Eventualmente, uma estrutura de novos institutos de pesquisas, em parceria com empresas, poderia ser a forma de se realizar esse ponto, como foi na Coréia.

Nossas empresas precisam deixar de ser meras montadoras de produtos com partes importadas dos países do centro da economia mundial e urgentemente estabelecer um novo paradigma para o nosso desenvolvimento, a fim de que este seja sustentável a longo prazo e dependa essencialmente das nossas próprias decisões. Esse paradigma é a inovação tecnológica e, no esforço de criar essa nova cultura, as instituições representativas do setor produtivo têm um papel fundamental e indeclinável. Esperamos que assumam essa liderança e não deixem escapar essa oportunidade histórica de mostrar a sua função cívica e social.

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