José Ricardo Roriz Coelho que, em 04/05, assumiu a presidência da Abiplast – Associação Brasileira da Indústria do Plástico, concedeu uma entrevista exclusiva ao Diretor do Jornal de Plásticos, Ângelo Roberto Sardinha Chagas:
JP: Como o processo de fusão das empresas petroquímicas afeta o setor transformador plástico?
José Ricardo: É lógico que qualquer setor industrial tem uma preocupação muito grande em ter apenas um fornecedor. A concorrência, em geral, gera ações que favorecem a um aumento de competitividade: tanto em relação a preços, como no estímulo para criação de novos produtos; há um melhor oferecimento de serviços, tudo isso visando uma maior competitividade.
As alternativas internacionais que o setor transformador nacional dispõe para o fornecimento de matérias primas plásticas são problemáticas: a Argentina possui uma indústria petroquímica de pequeno porte, de muito baixo investimento; os demais países estão distantes geograficamente do Brasil, como os do Oriente Médio, os Estados Unidos e a Coréia, com transit time grande, ou seja, se gasta muito tempo para os produtos chegarem aqui, com custos de frete muito elevados, o custo financeiro no Brasil e o processo de abertura da carta de crédito são complicados, principalmente, para as pequenas e médias empresas. Para as grandes empresas, o processo de importação se apresenta mais facilitado.
O processo de fusão é visto, portanto, pelo setor transformador com apreensão, mas reconhecemos o direito da Braskem de buscar ser mais competitiva e almejar maior economia de escala. Espero que eles transfiram uma parte desse ganho na produção para nós da terceira geração, pois, na realidade, é muito importante que se tenha uma cadeia competitiva; se houver “elos” dessa cadeia que são competitivos e outros não, tudo isso comprometerá o setor como um todo.
JP: O pequeno e o médio transformadores sempre foram clientes de um distribuidor. Anteriormente havia uma grande concorrência entre os distribuidores, mas agora...
José Ricardo: Os distribuidores tinham uma concorrência grande entre si e tentavam apresentar melhores serviços, melhores produtos e preços. Hoje nós temos um preço, praticamente, tabelado, pode-se dizer, pois não há concorrência, e os clientes de pequeno e médio porte não têm como importar os produtos, não possuem estrutura interna para fazer importação.
JP: Em relação à concentração, há alguns anos atrás eu estive conversando com um transformador de plásticos que dizia que a tendência da indústria de transformação de plásticos também seria de se concentrar; uma tendência a não haver mais empresas pequenas. Aqui no Brasil aconteceu exatamente o contrário, uma vez que a maior parte das empresas é de pequeno e médio porte.
José Ricardo: Acho que, no setor de transformação, haverá um processo de seleção natural entre as empresas, e, consequentemente, um processo de concentração também. Acho que a existência de 11.500 empresas de plásticos do Brasil é um número excessivo. Hoje, na Itália, há 700 transformadores, e, na Europa inteira, há cerca de 2.500-2.600 transformadores. Portanto, não tem sentido o Brasil apresentar esse número de transformadores.
JP: Aliás, essa é uma dúvida que tenho: existem mesmo 11.500 empresas transformadoras no Brasil?
José Ricardo: 11.500 cadastradas, mas às vezes existem mais de um cadastro da empresa, por estarem em regiões diferentes.
JP: Estou fazendo essa pergunta porque, por exemplo, na última publicação do “Perfil da Indústria Brasileira de Transformação de Material Plástico – 2009”, editada pela Abiplast, está lançado a existência de 650 empresas de transformação de plásticos no Estado do Rio de Janeiro, e, segundo outras fontes de informação, não há mais que 300.
José Ricardo: Isso porque há empresas que já fecharam, mas que continuam constando no cadastro; outras empresas podem constar com mais de um endereço.
JP: Quais são os principais entraves para o desenvolvimento da indústria de transformação de plásticos no Brasil?
José Ricardo: O principal entrave é o custo da matéria prima com preço competitivo. O segundo é trabalhar com a modernização do parque fabril, com inovação: há a necessidade de se investir em novidades.
O terceiro entrave é a imagem do plástico. Atualmente o setor de sacolas plásticas tem sido muito vilanizado, tem atraído muitas críticas para o material. Então, nós temos que melhorar a imagem do plástico. A embalagem plástica não pode ser vista como um mal necessário – a embalagem é onde você conserva o produto, é devido à embalagem que se consegue que os produtos, por exemplo, que os alimentos cheguem às grandes parcelas da população. A embalagem não pode ser vista como algo dispensável e, sim, como fundamental para que os produtos cheguem conservando suas características para o consumo. Isso agrega valor ao mesmo.
E também há a preocupação com o meio ambiente: o plástico é um produto limpo, pode ser reciclado, usa pouca energia, pode ser reaproveitado para outros produtos. É algo que não pode ser descartado com tanta simplicidade.
Esses são os principais problemas que existem hoje e que a diretoria da Abiplast pretende atacar com mais firmeza.
JP: Não dá para imaginar hoje, com essas epidemias, como a aids, gripes, etc., não haver produtos descartáveis, como seringas e copos... Essas campanhas de conscientização da população precisam ter certa lógica: se as pessoas estão jogando os sacos plásticos nos bueiros, é porque não há coleta seletiva, não há política governamental que atue prevenindo esse tipo de ação.
Agora, uma outra pergunta: quais são as perspectivas para a indústria de transformação plástica para 2010 e para os próximos anos?
José Ricardo: Eu vou falar em termos de volume e não em relação a preços: o ano passado houve pouco crescimento, porem houve variação de mais de 20% no preço da matéria prima, mas não houve aumento expressivo no volume de produção da mesma. Então, falando em volume, no ano de 2009 em relação a 2008 houve um crescimento de 1%; a perspectiva para 2010, em relação a 2009, é de um crescimento de 8% a 10%; há vários setores no primeiro trimestre desse ano que já apresentaram crescimento acima de 15%, como o setor de laminados, de produtos para a construção civil, para a indústria automobilística, de embalagens para alimento e bebidas, e outros. Com a base comparativa ao primeiro trimestre do ano passado, que foi muito ruim, então a gente espera que tenham um crescimento de 8% a 10% esse ano.
As perspectivas, portanto, são bastante positivas; o setor voltou a falar em investir. Isso quer dizer que, provavelmente, a indústria de transformação estará investindo em novas máquinas e equipamentos, em novos processos, em torno de R$ 4,1 bilhões para esse ano; os projetos deverão “sair da gaveta”, muita coisa tem sido pensada, algumas empresas já estão anunciando vários investimentos e isso é muito positivo.
JP: O Brasil já se solidificou economicamente, independente de quem venha a ser o próximo presidente, uma vez que estamos em ano eleitoral. Acho que já atingimos um estágio de crescimento sustentável. O que você pensa sobre isso?
José Ricardo: Depois de oito anos de governo FHC e de oito anos de Lula, posso dizer que no governo FHC houve a preocupação de colocar o Brasil num clima de normalidade, sob o ponto de vista econômico, com o Plano Real (que começou com o Itamar Franco), com a lei de responsabilidade fiscal, com um maior cuidado com as contas públicas; e teve o governo Lula, que continuou esse processo e aumentou o crédito para a pessoa física, também para as classes de menor poder aquisitivo, através de programas como o Bolsa Família, o que fez com que aumentasse o consumo na economia.
Agora, o grande desafio para o próximo governo é que na parte da infra-estrutura, não foi feito praticamente nada; não foi construído nenhum porto novo, nenhum porto e nenhuma estrada de ferro foram modernizados. Nossa rede de comunicações, por exemplo, nossa internet atual já está praticamente saturada – a Coréia, por exemplo, trabalha com velocidade de 12GB, enquanto que a maior parte população brasileira ainda trabalha com menos de 1GB.
Outro problema do atual governo é que houve um crescimento grande de consumo, mas a indústria cresceu pouco, além dela ser muito tributada. Como a indústria não cresceu na mesma proporção que o consumo, houve um aumento muito grande de importações, devido à valorização do Real em relação ao Dólar. O próximo governo, portanto, terá que equacionar uma carga tributária menor para o setor produtivo, um câmbio que incentive a exportação dos nossos produtos.
Em relação à indústria de plásticos, ela tem um potencial enorme. Há duas “cadeias” no Brasil que são muito competitivas, e que irão ser cada vez mais: a indústria de alimentos – o agronegócio – que, atualmente, é uma das mais competitivas do mundo; e a do petróleo, que em breve nos transformará em grandes exportadores. Quando se juntam essas duas cadeias, a embalagem encontra-se no meio delas, principalmente a embalagem plástica, pois ela terá uma matéria prima abundante. O ideal é que se agregue valor, aqui no Brasil, à cadeia ajuzante do petróleo, e à alimentícia, pois podermos deixar de exportar o alimento a granel para exportar alimento processado. A embalagem, principalmente a plástica, será o elo entre essas duas cadeias, onde o plástico será o grande vencedor. Portanto, uma das poucas coisas que poderemos ser muito mais competitivos do que a China na indústria de transformação é o setor de embalagens.
Quando olho para o futuro da indústria plástica, eu a vejo com uma perspectiva muito positiva, com grande potencial de crescimento.
JP: Quais serão as suas metas em relação a Abiplast, o que você pretende fazer especificamente na entidade que está presidindo agora?
José Ricardo: A primeira medida é “colocar todos sob o mesmo guarda-chuva”: trazer todas as grandes lideranças para o convívio associativo. Muitos representantes do setor, empresários que têm muito a colaborar com o setor, tem estado afastados da Abiplast. Com essa convergência e aglutinação, a Abiplast vai adquirir a legitimidade de ser a representante no Brasil de todo o setor transformador plástico nacional. Isso vai nos proporcionar que influenciemos a criação de políticas públicas para que se aumente a competitividade de nosso setor, aproveitando essas vantagens comparativas que o Brasil possui. Se nós exportamos petróleo porque temos que pagar por matérias primas muito mais caras do que as dos nossos concorrentes? Por que, como disse anteriormente, ao invés de exportamos alimentos a granel não o exportamos processado e embalado? Por que nós não temos investimento em inovação, tecnologia, pesquisa e desenvolvimento compatível com o tamanho de nossa Indústria?
Vamos buscar atingir esses indicadores todos para que estejamos entre as indústrias de transformação plástica mais competitivas do mundo.
JP: Para finalizar, gostaria de saber sua posição com relação a entidades do tipo do INP e da Plastivida?
José Ricardo: Com relação ao INP, minha proposta é de revitalizá-lo: ele atualmente está muito “burocrático”, mas ele poderá ter uma função muito mais pró-ativa e fortalecer a competitividade da indústria plástica; passará a ser um “braço” cada vez mais importante desse processo e a indústria plástica se aproximará cada vez mais do INP.
Quanto a Plastivida, ela vem lidando satisfatoriamente com suas funções. Entretanto, a indústria da transformação plástica está muito afastada dela. Ela, atualmente, tem boa relação com as indústrias de resinas, mas não com os transformadores. A idéia é, portanto, aproximar o transformador da Plastivida para que se tenha uma interação maior entre eles. Por exemplo, o fabricante de sacolas plásticas já tem uma boa interação com a Plastivida, mas é importante que o restante da indústria da transformação esteja alinhado com essa entidade para que o setor, como um todo, adquira uma boa imagem perante a sociedade.
José Ricardo Roriz Coelho
Após uma bem sucedida carreira de 25 anos no setor petroquímico, com importante papel em sua reestruturação, José Ricardo Roriz Coelho vem atuando junto ao consumidor final: desde fevereiro de 2008, o executivo assumiu a presidência da Vitopel, maior companhia Latino Americana e 3ª no mundo, na produção de filmes flexíveis BOPP - material de alto valor agregado usado em segmentos com enorme potencial de crescimento, desde embalagens para alimentos e bebidas, pet foods, etiquetas, rótulos e gráficas à indústria do tabaco.
Tendo sido presidente da Polibrasil, da Suzano Petroquímica e da Nova Petroquímica, além de dirigir algumas outras companhias e entidades como Ipeg, Abiquim, Siresp e Fiesp, Roriz Coelho vem trabalhando, há dois anos, com o intuito de fortalecer a indústria de embalagens e prepará-la para os desafios do mercado global.
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