JORNAL DE PLÁSTICOS - MAIO DE 2000

DISTRIBUIÇÃO DE RESINAS TERMOPLÁSTICAS: UMA
REALIDADE QUE VEIO PARA FICAR

Entrevista com José Simantob Netto

Um fato que vem mudando a concepção de abastecimento de resinas para os transformadores de menor volume é a crescente importância que vem ganhando a rede de distribuidores autorizados no atual cenário do mercado de fornecimento de resinas termoplásticas.

Segundo José Simantob Netto, dono de um invejável currículo - exerceu cargos de gerência e direção em empresas como Ford, Dow, Monsanto, Cyanamid, Poliolefinas (atual OPP), Proquigel e entidades de classe - e com uma folha de inestimáveis serviços prestados à cadeia petroquímica/plástica, a Indústria Petroquímica Brasileira tem orientado seus negócios para a Distribuição Autorizada de resinas a fim de abastecer 90% dos transformadores do Brasil. Com isso, vem inserindo a realidade brasileira dentro da realidade internacional, uma vez que nosso País está irreversivelmente integrado ao mercado globalizado. O trabalho, sendo desenvolvido por Piramidal, Ruttino, SPP Nemo, Unipar Comercial, Ipiranga Comercial, Clariant, Activas, Monte Cristo, Macroplast, Polypolymer, Plasmar, Econtrading e outros distribuidores, já faz parte desta nova realidade que representa a distribuição no comércio internacional de resinas.

José Simantob sempre foi um entusiasta da distribuição autorizada tendo, inclusive, há dez anos, preparado um estudo que mudou a concepção da distribuição das resinas termoplásticas no Brasil.

Para melhor compreensão do assunto, o JP entrevistou-o para que expusesse suas idéias a respeito.

JP - O senhor considera que a história do abastecimento de resinas no Brasil se divide em duas “eras”: antes e depois da Distibuição organizada de resinas.Como o senhor explica isso?
JSN - De maneira geral, o mercado de resinas se caracteriza pela regra dos 80/20 (que também pode ser 70/30 ou 90/10 ou outras combinações aproximadas). Em outras palavras, cerca de 80% do volume de vendas se concentram em cerca de apenas 20% dos clientes potenciais do mercado. Estes são os clientes grandes transformadores. No passado, pelo menos em teoria, os produtores de resinas atenderiam, direta e indistintamente, grandes e pequenos transformadores, ou seja, 100% dos milhares de transformadores do País.

JP - O senhor disse que, no passado, havia atendimento direto e indistinto, em teoria, a grandes e pequenos trasformadores. Na prática isso não funcionava?
JSN - Algumas vezes podia funcionar, quando o mercado internacional era vendendor, e sobrava produto. Quando o mercado passava a ser comprador e face à perpesctiva da falta de produto, as vendas se concentravam nos clientes preferenciais, ou seja, os transformadores que compravam grandes volumes. Nem poderia ser diferente, pois isso se dava devido à falta de um outro grande cliente preferencial que hoje também compra em grandes volumes: O Distribuidor. O advento do Distribuidor autorizado é o grande divisor de águas para que o abastecimento possa se regularizar, evitando as distorções de mercado de triste recordação, no passado. Daí as duas”eras” a que nos referimos.

JP - Que distorções de triste recordação são estas?
JSN - Algumas pessoas são “novas no pedaço”, outras têm memória curta e outras fazem questão de esquecer. Por isso, é sempre bom lembrar de alguns detalhes. Até o início da década de 90 o referencial dos preços era dado pelo governo atarvés da CIP, para garantir o retorno sobre o investimento na Petroquímica e, ao mesmo tempo, atualizar preços no mercado interno, na moeda local da época, em uma economia plenamente indexada sob elevada inflação. Por seu turno, a Indústria Petroquímica sempre investiu na expansão das suas plantas, de tal forma que sempre houve excedentes de produção sugerindo uma intensa atividade exportadora de resinas a fim de se manter uma escala econômica de produção e conseguir o equilíbrio entre a demanda e a oferta interna. O mercado mundial de resinas, por seu turno, sempre se caracterizou por ciclos, ora de escassez de produtos, ora de excesso.

Nas ocasiões de excesso, tudo podia ir bem para o transformador de pequenos volumes.Porém, nas épocas de escassez, ele corria o risco de ter que pagar um ágio no mercado que poderia variar de 50 a 100%, se não quisesse parar a sua fábrica. Além disso, comprava qualquer grade de resina, para tentar trocar pela mais adequada à sua produção.

JP - Por que havia este ágio?
JSN - O nevorsismo entre os grandes transformadores, diante da perspectiva da falta de produtos, levava-os a colocar pedidos exagerados e em um número maior de produtores de resinas, portanto, em volumes muito acima da sua carteira de pedidos para produtos acabados. Tudo isso. eles faziam, para garantir desesperadamente o mínimo para sua produção. Como é natural, nenhum fornecedor iria desprezar um cliente de volume (não se sabe o dia de amanhã) e, assim, muitas vezes, o grande transformador ficava com excedentes na mãos, que obviamente não seria devolvido ao produtor. Assim, estes excedentes precisavam ser desovados, o que acontecia através de especuladores que dirigiam estes produtos ao mercado dos menores transformadores, com ágio gerado pela própia lei da oferta e demanda. Enfim, a falta de uma rede de Distribuição autorizada é que causava esta distorção, descontrolando o mercado. Com o advento da Distribuição Autorizada, hoje generalizada na Petroquímica, atuando como reguladora de mercado, estas distorções não deverão se repetir. A Distribuição Autorizada de resinas segue o seu caminho de maneira irreversível.

JP - Por que o senhor considera este caminho irreversível?
JSN - Lembro-me de uma frase dita por um ex-presidente mundial da DOW, da década de 70, o Sr. Paul Oreffice: “A Dow só sabe trabalhar as pequenas contas”. Uma boa parte do sucesso da DOW, em todo o mundo, deve-se a esta política de concentrar todo o seu potencial de marketing, vendas, desenvolvimento e assistência técnica nos clientes preferenciais de grande volume, ou seja, aplicando a regra dos 80/20. Porém, nem por isso os pequenos deixaram de ser preferenciais, pois nunca foram desamparados, ao serem atendidos por outros clientes preferenciais da DOW : Os Distibuidores Autorizados. Este é um exemplo que já vem sendo assimilado pelos produtores de resinas devido a necessidades surgidas pela própria realidade de mercado.

JP - Que necessidades são essas?
JSN - A inserção da nossa petroquímica no mercado globalizado vem exigindo uma racionalização de custos e adequação de escalas de produção. Para ser competitiva a petroquímica brasileira vem procurando ajustar seus padrões operacionais e indicadores de desempenho dos “players” internacionais. Em outras palavras, vem adotando a prática do benchmark. A distribuição de resinas é um fato consumado em todo o mundo. Não adotá-la seria ter uma organização “ inchada”, fora dos padrões internacionais, pouco produtiva e prestando um serviço imcompatível com as necessidades de um mercado representado por cerca de 5000 pequenas empresas. Ao limitarem as entregas a um mínimo de toneladas por cliente, os produtores de resinas tendem a operar dentro de padrões mundiais de competitividade que são a base de sobrevivência de um setor estratégico para o País e para a indústria de transformação.

JP - Mas esta prática não encarece a matéria prima para o pequeno transformador?
JSN - O que você chama de encarecer? A matéria prima mais cara é aquela que o transformador não tem quando dela precisa ou quando teve de pagar um ágio desmesurado. Apesar de os Distirbuidores registrarem em suas tabelas preços recomendados pelo fabricante, eles competem entre si o que define o preço de mercado, Além disso, existe a tendência do ganho em volume e não de um ganho excessivo em pequenos volumes. Isto seria o mesmo que dar um tiro no próprio pé. É também importante considerar que a logística que vem sendo desenvolvida pelos distribuidores constitui um fator de agilidade de suprimento e agregação de valor para o pequeno transformador, o que dificilmente poderia ser propocionado pelo produtor de resinas.

Ainda há de se considerar que a estrutura de custos do pequeno transformador é mais leve do que a do grande transformador de tal forma que ele suporta diferenciais de custo de matéria prima de mercado que não interessam aos grandes. Além disso, a prática do E-business dá um grande leque de opções ao comprador.

JP - Se houver nova escassez de resinas, há perigo de voltar o ágio?
JSN - Hoje, com a Distribuição Autorizada, devidamente organizada e controlada, isto será muito difícil, por vários motivos. Primeiramente, estes distibuidores são os olhos e ouvidos dos produtores de resinas, portanto, capazes de detectarem os movimentos especulativos e sua origem. Além disso, eles também são clientes preferenciais dos produtores de resinas, condição esta de garantia de suprimento, já que a distribuição tende a conferir estabilidade ao mercado, livrando-o de certas situações caóticas de suprimentos vividas pelo pequeno transformador, no passado.

JP - Como o senhor vê os serviços prestados pelos Distribuidores?
JSN - Eu vejo um aperfeiçoamento contínuo em termos de logística (armazenamento e movimentação de materiais). A maior parte deles já tem pelo menos um certificado ISO 9002, que garante a qualidade do produto e dos serviços correlatos. Alguns já vêm buscando certificação QS 9000, fornecedores que são da indústria automotiva. Outros já estão a caminho da certificação ISO 9000:2000, a nova norma com foco na gestão dos processos e orientada para resultados. Alguns já estão utilizando-se da Internet para levar a informação e transferir conhecimentos sobre o uso das resinas e seu desempenho ao mercado, como base para realizar negócios eletronicamente (E-commerce e E-business). Tudo isto racionaliza custos operacionais que certamente se traduzir-se-ão em agregação de valor para o cliente, devido à transferência de economias e aumento de ganhos pelo melhor serviço ao mercado. Alguns Distribuidores já dão descontos nos preços para quem adquire resinas pela Internet.

JP - Que conselho o senhor daria aos Distribuidores para consolidarem sua posição como prestadores do melhor serviço ao mercado?
JSN - Acredito que os Distribuidores Autorizados jà têm massa para criarem uma entidade representativa da classe. A associação será um fórum para eleição de temas de assuntos comuns a todos os associados e que serão discutidos em comissões e grupos de trabalho, para solução de problemas comuns e aproveitamento de oportunidades comuns. É importante também se acercarem, através da associação, de outras entidades que se dedicam ao apoio das pequenas empresas, tais como o IPT, INP, SEBRAE, FAPESP, Projeto Brasil Empreendedor e outros. Afinal, quanto melhor o desempenho dos pequenos transformadores, melhores os resultados dos Distribuidores Autorizados, Em todo o mundo, a pequena empresa, mais ágil e flexível, é periférica das grandes.

Entretanto, para sua sobrevivência, precisarão ser competitivas em base tecnológica, que é a tendência da realidade brasileira. Nisso, uma associação de distribuidores poderá desempenhar um grande papel, pela capilaridade com que seus futuros associados penetram neste mercado, que precisa ser melhor assistido.

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