JORNAL DE PLÁSTICOS - MARÇO DE 2000


O CUSTO ELEVADO DA CORRUPÇÃO

SYDNEY A. LATINI

A onda crescente de corrupção que avassala o mundo tem sido objeto de preocupação cada vez maior, não apenas na esfera acadêmica ou governamental, mas de todas as instituições da sociedade organizada.

Há cerca de um ano, num Fórum de Ética, promovido por empresários do Rio Grande do Sul, foi apresentada a proposta de um pacto ético das elites políticas, empresariais, acadêmicas, corporativas e sindicais, para consertar o Brasil, ante o espanto da escalada ascendente da corrupção no País.

A ética das relações do setor privado com o setor público estão em questionamento em todo o mundo, pois a falta de ética, fermento da corrupção, é uma doença universal. O que não é universal é a impunidade dos corruptos, dos corrompidos e dos corruptores.

Nunca é demais repetir que a impunidade é fator por excelência de corrupção. Aumentando a audácia dos corruptos, minando a confiança nas autoridades e nas instituições, ela concorre poderosamente para o malogro das medidas saneadoras e impõe brados de alerta como o do Fórum de Ética realizada pelos empresários gaúchos.

A corrupção é antiga, permanente e, ao que se receia, inerente à condição humana ou pelo menos inseparável da sociedade. Também é verdade, no entanto, que sempre se procurou lutar contra ela e, na virtual impossibilidade de eliminá-la, contê-la em limites toleráveis.

O verdadeiro perigo está no seu crescimento excessivo, na sua difusão demasiado ampla; ou melhor, o que nos deve alarmar é a corrupção generalizada, sistêmica, institucionalizada, como já denunciava em artigo o eminente jurista Sérgio Bermudes, há quase duas décadas: “A ordem jurídica é deficiente, os juízes estão sem poderes e todo o mundo desobedece a lei.”

Quando se fala em ser humano e sociedade em geral, desde logo fica implícito que a corrupção não se restringe ao serviço público, ao governo, ao Estado, ocorrendo também na área privada, segundo alguns com maior intensidade ou mais generalizadamente, como parece haverem concluído os próprios empresários reunidos no painel sobre Ética Empresarial do Fórum de Porto Alegre, ao atribuir apenas a nota cinco, padrão médio, para o nível ético do empresariado brasileiro.

Embora nenhum economista haja se abalado até hoje a estimar os custos da corrupção, o exercício econométrico poderá produzir cifras espantosas.

Não há dúvida sobre os custos políticos, administrativos e sócio-econômicos inerentes à corrupção, tendo em vista o desperdício econômico, a desestabilização política e o debilitamento da gestão governamental, que resultam de sua prática.

Investimentos tendem a ser canalizados para setores com maiores possibilidades de propiciar ganhos ilícitos, em detrimento, por exemplo, de aplicações em programas sociais. Capital ilicitamente acumulado termina muitas vezes em bancos suíços, deixando de ser aplicado em investimentos produtivos. Considerável energia administrativa passa a ser empregada para engendrar e esconder transações escusas. Práticas corruptas tendem a minorar a credibilidade do regime, concorrendo para reduzir sua legitimidade.

Além de comprometer a legitimidade do regime, a corrupção emascula a ação governamental e conduz ao crescente cinismo do contribuinte levando os dirigentes a recorrer cada vez mais à coerção, na medida em que se reduz a adesão espontânea dos cidadãos às normas formuladas pela elite política.

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