PANORAMA SOBRE A RECICLAGEM DE PLÁSTICOS NO BRASIL
Élen Beatriz Pacheco* e Cecília Cipriano**
| O setor de reciclagem de plásticos ainda encontra-se
em um estágio inicial de desenvolvimento, apesar de algumas empresas já estarem bem estruturadas
e preocupadas com qualidade. A formação de uma rede integrada composta de Industrias, Universidades,
Organizações não-governamentais e governo poderá melhorar essa área inóspita,
propondo alternativas de tratamento e redução de resíduos, otimizando os procedimentos de
produção existentes, assim como o desenvolvimento de novas tecnologias de reciclagem. A reciclagem trás benefícios internos e externos para as industrias que já entenderam a necessidade de uma política empresarial de gestão ambiental: melhoria contínua dos processos industriais, produtos e serviços, visando reduzir os recursos naturais, economia de energia e matéria prima; redução da geração de resíduos diversos, minimizando os riscos aos seres humanos e ao meio ambiente, como por exemplo, a diminuição de doenças causadas pela proliferação de vetores presentes no lixo (febre amarela, malária, leptospirose e leishmaniose); a geração de empregos; a imagem que a empresa constrói perante o consumidor e, aumento da vida útil dos aterros sanitários. Todos saem ganhando com o desenvolvimento da reciclagem, inclusive o Estado que economizará nas áreas de saúde e saneamento. As embalagens, de um modo geral, são os materiais mais descartados. Pode-se comprovar essa afirmação somente olhando dentro do recipiente de lixo de nosso domicílio. Esses materiais apresentam uma vida útil muito pequena, ou seja, o tempo que leva para sua fabricação, envase, utilização e descarte, em muitos casos, é questão de dias. O plástico, material cada vez mais usado para embalagens, apresentava-se em percentagens menores que 2% no lixo urbano antes da década de 70. Segundo a Comlurb, esse material, hoje, responde por 20% em peso na composição do lixo do Rio de Janeiro. Os tipos de plásticos mais encontrados no lixo são os polietileno de baixa e alta densidade (LDPE e HDPE, respectivamente), o poli(tereftalato de etileno) (PET), o polipropileno (PP) e o poli(cloreto de vinila) (PVC), frequentemente utilizados na confecção de embalagens. As opções para a disposição final dos plásticos, que já foram consumidos, oriundos de aglomerados urbanos são: aterro sanitário, incineração, usina de triagem e coleta seletiva. O material coletado seletivamente ou separado em uma usina de triagem poderá ser submetido à reciclagem ou à reutilização. Dentre essas opções, a reciclagem é considerada uma das alternativas mais importantes; é o resultado final de atividades intermediárias de coleta, separação e processamento, onde materiais pós-consumo são usados como matéria-prima na manufatura de bens, anteriormente feitos com matéria-prima virgem. O sucesso da reciclagem está diretamente ligado ao fornecimento de matéria-prima, à tecnologia utilizada no processo de reciclagem e a um mercado diferenciado para o produto reciclado. O Brasil ainda não tem uma forma correta para a destinação de seus resíduos, cerca de 80% de nosso lixo é depositado a “céu aberto”, vulgarmente denominado “lixão”. O desperdício é maior, pelo fato do Brasil ser um país que apresenta uma população predominantemente pobre, ou seja, com uma renda familiar próxima ou inferior a um salário mínimo (cerca de US$ 80,00). Poderíamos estar economizando, através da reciclagem, materiais que estão sendo descartados de forma não adequada. O índice de reciclagem de plástico gira em torno de 12% em relação o que é produzido, um valor ainda muito baixo. As empresas recicladoras de plástico mau sobrevivem no mercado em que seu produto é bitributado, além de não haver fornecimento constante e segura de matéria-prima pós-consumo para ser reciclada. Dessa forma, algumas empresas, que para sobreviver no mercado, são obrigadas a viver quase na clandestinidade. A reciclagem no Brasil enfrenta muitos problemas, e por essa razão ainda não deslanchou. De um modo geral, ainda deve resolver questões básicas, entre as mais importantes, têm-se: Incentivo fiscal - O Imposto sobre Produtos Industrializados, IPI, é cobrado em percentagem superior no caso de plásticos reciclados (12% contra 10% para a embalagem confeccionada a partir de matéria-prima virgem); Aquisição de matéria-prima - A falta de um gerenciamento integrado do lixo prejudica o fornecimento de material a ser reciclado com uma freqüência necessária para a produção não parar. O fortalecimento das cooperativas de catadores também poderá auxiliar na logística do gerenciamento do lixo; Qualidade da matéria-prima - Normalmente, o material fornecido por sucateiros ou atravessadores para as recicladoras não apresenta homogeneidade. A perda relacionada a quantidade de material fornecido e a quantidade do material que realmente vai ser reciclado chega a 40% no caso dos recicladores que trabalham com material oriundo de “lixão”; Tecnologia - Algumas empresas são atraídas a entrar no mercado de reciclagem pelo fato do lixo poder ser, teoricamente, adquirido a custo zero. Por falta de tecnologia e conhecimento do mercado enfrentam problemas, como por exemplo: gastos excessivos de energia e de água e altos custos ligados a produção. Muitas empresas fecham antes de completar 2 anos no mercado; Qualidade do material reciclado - Alguns produtos entram no mercado sem qualidade, o que conduz a desconfianças na aquisição. Isso, também, vem prejudicar as empresas do ramo que trabalham seriamente; Mercado consolidado - Há poucos mercados diferenciados para materiais reciclados. Deveria haver uma conscientização por parte da população na maior utilização de artefatos feitos de material reciclado. Na questão sobre reciclagem de plásticos deve-se analisar 3 pontos primordiais, que uma vez interligados poderiam resolver grande parte dos problemas encontrados: No primeiro ponto têm-se as empresas recuperadoras que enfrentam problemas relacionados à falta de incentivos fiscais, à tecnologia utilizada e ao fornecimento de material para ser reciclado; No segundo ponto têm-se as universidades, os centros de pesquisas e organizações não-governamentais que já estudam e/ou produzem trabalhos na área de gerenciamento ambiental; O terceiro elo seria o governo, representado também pelas prefeituras, que enfrentam problemas relacionados com a disposição do lixo como: a falta de espaço para os aterros sanitários, o entupimento de bueiros com lixo na época de chuvas, aumento de vetores de doenças, etc. Os resultados do trabalho da parceria desses 3 pontos, citados acima, são benéficos para a sociedade, entre eles tem-se a geração de empregos e melhoria nas condições de vida da população - questões primordiais para nosso país. Essa atuação conjunta criará incentivos para a reciclagem no país, mais industrias entrarão no ramo, consequentemente haverá uma concorrência sadia e a qualidade será visada. Investimentos nas etapas anteriores e posteriores a reciclagem, ou seja, na coleta seletiva e no mercado para o produto reciclado deverão ser intensificadas. Hoje, no Brasil, são desenvolvidos muitos trabalhos na área de reciclagem, e a maioria desses estudos são gerados em universidades localizadas na região sudeste, onde há maior concentração de recicladores. No ultimo Congresso Brasileiro de Polímeros, mais importante no campo de plásticos, realizado em 1999, foram apresentados cerca de 30 trabalhos na área de reciclagem de plásticos. As universidades podem auxiliar no desenvolvimento de tecnologias mais baratas para a obtenção de plástico reciclado de melhor qualidade dentro de uma realidade de um país ainda em desenvolvimento. Cabe ao governo incentivar através de leis e impostos essa eco-indústria. Os incentivos podem ser obtidos com as reduções do imposto de renda, da taxa sobre produtos industrializados (IPI) e do Imposto sobre Circulação de Mercadorias (ICMS) para as empresas que se dedicarem à reciclagem, podendo propiciar menor preço para produtos recuperados, o que estimulará sua aquisição por parte do consumidor. Tocantins é um estado que saiu na frente no incentivo a reciclagem. O estado isenta em 100% o pagamento de ICMS no transporte interno de materiais destinados a reciclagem, além de dar incentivos na aquisição de terreno e infra-estrutura básica para instalação da recuperadora. Os planos governamentais de Tocantins devem servir de modelo para outros estados. Acredita-se que esse seja um dos pontos mais importantes que tornarão esse mercado competitivo. Com o objetivo de incentivar a reciclagem de plásticos , o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Ambientais e Desenvolvimento (NIEAD) do Centro de Ciências da Matemática e Natureza da UFRJ lança o curso de treinamento profissional de RECICLAGEM DE PLÁSTICO de 16 horas distribuídas nos dias 01 e 02 de junho de 2001, no campus da UFRJ na Praia Vermelha. . O curso transmitirá aos participantes os aspectos envolvidos no projeto, operação e administração de uma Recicladora de Plástico, visando a capacitação para a escolha e implantação de um empreendimento ambientalmente limpo e rentável, sob o ponto de vista econômico. No curso será também demonstrada a importância da atividade de Reciclagem de Plástico para a preservação do meio ambiente, geração de empregos e conservação dos recursos naturais e energéticos. Os principais tópicos a serem abordados são: Problemas sócio-econômicos no país; Reciclagem de Plásticos: viabilidade econômica, potencial de crescimento;Plástico virgem: Processos de transformação de plásticos, Processos de reciclagem de plásticos; Cálculos: sedimentador para remoção de lama, polias para motores; Energia elétrica; Projeto de uma recicladora; Estudo de Viabilidade Técnica-Econômica (EVTE). Mais informações sobre o curso: tel.(21) 270 8547 ou end. eletrônico: ceciliac@acd.ufrj.br *Élen Beatriz Pacheco, DSc, é Pesquisadora do Instituto de Macromoléculas Professora Eloisa Mano pertencente a Universidade Federal do Rio de Janeiro. **Cecília Cipriano, DSc, é Coordenadora de Cursos do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Ambientais e Desenvolvimento (NIEAD) do Centro de Ciências das Matemáticas e da Natureza(CCMN) da UFRJ. |
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