MARÇO DE 2003

O Álcool, o “Motor Brasil” e o conflito no Iraque

Sydney Latini

O engenheiro Jayme Rotstein é, sem dúvida, uma das maiores autoridades sobre o uso do álcool para substituir o petróleo como combustível para veículos.

Sua firme convicção quanto as vantagens comparativas do álcool em relação ao petróleo, sobretudo no Brasil, está exposta na farta bibliografia de sua autoria sobre o assunto. Merece destaque pela oportunidade de seus comentários – embora redigidos em 1985 – o livro Conspiração contra o Álcool.

Vale a pena reproduzir – com  a devida vênia – alguns trechos daquela publicação, numa conjuntura em que o abastecimento de petróleo, em escala mundial, volta a preocupar e que seu preço ameaça atingir níveis ameaçadores.

“Julgo – afirma Rotstein – que o álcool é um recurso econômico, porém mal utilizado como combustível líquido como alternativa imediata para o transporte agora e por mais meio século...”

“É preciso não esquecer : o petróleo é um produto que desaparecerá em uma, duas ou três gerações – historicamente ele vale 100 anos -, ou seja, é inexpressivo em termos históricos, enquanto o álcool etílico, que existe há milênios, e continuará existindo  por outros milênios”.

“Que o Brasil pode ser grande produtor de álcool ninguém duvida. Que pode fazê-lo melhor para uso interno, privilegiando os veículos que movem a economia nacional – caminhões, ônibus e tratores – alguns duvidam, sem tentar lealmente diminuir a dúvida, com estudos, pesquisas e providências práticas”.

“Entidades como a COPERSUCAR, com excelentes instalações de pesquisas, não se atrevem a entrar na pesquisa do motor entre 130 a 400 HP, particularmente o de 240 HP, porque está numa área de quase conflito potencial”.

“Nem ao menos defendem o MOTOR BRASIL [movido a álcool], que continua mofando no Centro Técnico Aeroespacial. E, assim, não se abre ao Brasil o grande mercado de álcool, de tecnologia agrícola, demanda de bens de capital e de veículos movido a álcool, que a compreensão e a coragem de assumir atitudes permitiriam fosse alcançado”.

Quase vinte anos depois desse brado de alerta, anunciam-se, finalmente os resultados positivos de pesquisa realizada na UNICAMP com o objetivo de desenvolver um motor movido com energia elétrica gerada com álcool etílico, já em fase de teste e a ser apresentado no Salão do Automóvel em agosto próximo.

Atento à extrema dependência do Mundo Ocidental ao suprimento de petróleo procedente do Oriente Médio, Rotstein, já em 1985, adverte:

“No conflito Leste X Oeste, a probabilidade de problemas com o petróleo é maior do que o de uma guerra generalizada. Basta entender que o Mundo Ocidental depende e dependerá em 60% do petróleo do Golfo Pérsico, e associar a isso dois fatos: o gás que é fornecido pela Rússia à Europa Ocidental tem seu preço indexado ao do petróleo; a Russia influi no Golfo Pérsico e está no Afganistão, tendo grande poder de barganha, tanto para aumentar o seu ingresso de dívisas, fazendo subir o preço do petróleo, usando para isso o seu poder político, econômico e militar, como para tumultuar a economia do Mundo Ocidental. Daí os Estados Unidos estarem gastando 40 bilhões no que eles chamam de Rapid Deployment Force, entre 1981 e 1987, para chegar rápido ao Golfo Pérsico, gerando condições de evitar o estancamento do petróleo no Golfo Pérsico. Em caso de necessidade, chegarão a tempo? Ficarão lá? Não se sabe”.

*Economista, foi Secretário Executivo do GEIA-Grupo Executivo da Indústria Automobilística durante o Governo JK..


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