![]() |
OUTUBRO DE 2003 |
|
Os destinos dos pneus inservíveisMariana Sandroni(1) e Elen B.A.V. Pacheco(2) O acúmulo de pneus usados representa um passivo ambiental estimado em 100 milhões de carcaças no Brasil. As tecnologias mais comuns para dar destino aos pneus usados são a recauchutagem, a regeneração, a reciclagem energética, a pirólise, a composição asfáltica, além de diversas formas de reutilização. A Resolução CONAMA 258/99 determina que os fabricantes são os responsáveis por dar destino aos pneus inservíveis e, atualmente está sendo atendida, principalmente, através da queima de carcaças em cimenteiras. Porém, não basta eliminar o resíduo em fornos. É preciso analisar as questões ambientais e sociais que estão envolvidas. Programas de coleta, incentivo à pesquisa no setor de reciclagem de pneus, fiscalização e normas para disposição do resíduo são os elementos necessários para a destinação correta dos pneus inservíveis. Para dar destino aos pneus usados, não há uma tecnologia ideal, pois a definição do processo depende de fatores como: volume de pneus, proximidade de mercado, tipo de consumidores, investimento necessário, além de incentivos fiscais e financeiros. Para o desenvolvimento e avanço das tecnologias voltadas para a reutilização e a reciclagem de pneus, é necessário um esforço conjunto de empresas, do governo e da sociedade. Quando abandonados inadequadamente, os pneus servem como local para procriação de mosquitos, pequenos roedores e outros vetores de doenças, além de representarem um risco constante de incêndio, o que contaminaria o ar com uma fumaça altamente tóxica e deixaria um óleo que se infiltra e contamina o lençol freático. Quando se trata de um problema de controle de resíduos, é necessário que essa abordagem siga uma hierarquia, chamada de 3Rs: i)Reduzir: em primeiro lugar, é necessário verificar a possibilidade de se evitar a produção do resíduo, com a redução de consumo, do peso do produto descartado, entre outras; ii)Reutilizar: em segundo lugar é necessário verificar se não é possível encontrar uma nova serventia para esse produto, em que grande parte das suas propriedades ainda possam ser contabilizadas; iii)Reciclar: a terceira alternativa é o aproveitamento da matéria prima que constitui o produto a ser descartado.
A melhor forma de evitar problemas ambientais é reduzir ao máximo a geração de resíduos. Reciclar antes de tentar reduzir ou reutilizar, significa contribuir para a perpetuação da geração dos resíduos. Para dar destino a pneus usados, existem processos tecnológicos voltados tanto para a reutilização quanto para a reciclagem.
Reutilização Existem vários processos de reutilização, com produção em menor escala, quando comparados com os métodos de reciclagem. Como exemplo, tem-se: a)Os pneus inteiros são reutilizados como muros de arrimo, produtos artesanais ou na drenagem de gases em aterros sanitários. b)Em Piracicaba, Estado de São Paulo, os pneus servem para conter a erosão do solo. Já em Limeira, no mesmo Estado, tal produto facilita a drenagem de líquidos percolados de aterros. c) A construção e implantação de quebra–mares por meio da utilização de pneus inservíveis são tecnologias de baixo custo e facilmente adaptáveis. Protegem portos e marinas dos efeitos das marés, geram estabilidade para o solo marinho e para a praia. Se instalados ou construídos, de forma ambientalmente adequada, ainda poderão servir como flutuantes, além de possibilitarem a estabilização de dunas existentes. Evitam a erosão de bancos de rios e córregos e protegem os barcos de correntes marítimas. d)A Escola de Samba “Unidos do Morrinho”, de Santo Antônio de Leverger, localizada a 27 km de Cuiabá, Mato Grosso, transforma pneus usados em cadeiras.
Reciclagem Para a grande maioria dos processos de reciclagem, há necessidade de reduzir o tamanho das partículas do pneu, além de separar a borracha das partes metálicas e do nylon. Assim, a granulação é a primeira etapa a ser feita para a recuperação do pneu, na qual, geralmente, os constituintes são separados. A trituração é conduzida em algumas etapas. Inicialmente, resulta em pedaços de uma granulometria elevada. Posteriormente, o material é triturado novamente para obter-se uma granulometria inferior. A moagem prossegue sucessivamente até que se obtenha o pó da borracha. O aço é retirado do processo através de eletroímã e os tecidos de nylon ficam depositados em peneiras. O material moído tem, no Brasil, três aplicações principais, sendo que a primeira, apresentada abaixo, é seu uso mais comum:
1º) Nos fornos de fábricas de cimento é usado como combustível sendo os resíduos sólidos resultantes incorporados ao cimento; 2º) Na produção de saltos e solados de calçados, mangueiras, tapetes para automóveis, entre vários outros produtos; 3º) Na mistura com asfalto para a pavimentação de vias e pátios de estacionamento, sendo que esta tecnologia encontra-se ainda em fase experimental.
A reciclagem dos pneus é mais dispendiosa em função do material estar vulcanizado, quando comparada com a reciclagem do plástico, um polímero não vulcanizado. Reforma Existem, basicamente, dois processos para reforma de pneus:
1)Remoldagem – o pneu é reconstruído através da substituição da banda de rodagem, dos ombros e de toda a superfície de seus flancos; 2)Recauchutagem – o pneu é reconstruído através da substituição da banda de rodagem. Para a reforma do pneu, os requisitos são que a sua estrutura geral não apresente cortes e deformações e que a banda de rodagem ainda apresente os sulcos e saliências, que permitem sua aderência ao solo.
Regeneração Na regeneração, os resíduos de pneu passam por modificações químicas que os tornam aptos a receber em nova vulcanização. Porém, o material regenerado não tem as mesmas propriedades da borracha crua original. No processo de regeneração de pneus, a borracha é separada dos outros componentes e degradada. O arame e a malha de aço são recuperados como sucata de ferro, o tecido de nylon é recuperado e utilizado como reforço em embalagens de papelão. A borracha regenerada de pneus pode ser empregada na fabricação de muitos artefatos como, por exemplo, tapetes, pisos para indústrias e para quadras esportivas, sinalizadores de trânsito, além de rodízios para móveis e carrinhos. Também é utilizada no revestimento de tanques de combustível e como aditivo em peças de plásticos, aumentando-lhes a elasticidade.
Pirólise A pirólise é o processo através do qual ocorre degradação térmica com ausência de oxigênio, que permite a extração de óleo e gás para serem utilizados como combustível em processos industriais. O óleo obtido, após condensação e decantação, é usado na indústria química e como substituto do petróleo em algumas indústrias petroquímicas. O gás, combustível por excelência, é consumido dentro da própria indústria. Uma vez gerado, aquece a caldeira, onde ocorre a pirólise, gerando mais gás que reaquece-a. Um exemplo da utilização da pirólise como combustível tem sido a usina de São Mateus do Sul, no Paraná.
Fonte de energia O pneu pode ser utilizado como fonte de energia através de sua queima, caracterizando a reciclagem energética. O maior problema ambiental, encontrado nesse processo, é a exalação de gases como o dióxido de enxofre e a amônia, que podem levar a precipitação de chuvas ácidas. Assim, torna-se necessário o tratamento desses gases, o que encarece o processo. Para o co-processamento na fabricação do cimento, o pneu é utilizado como combustível no forno da cimenteira e suas cinzas e seus componentes são agregados ao cimento. Na Europa, 40% dos pneus inservíveis são utilizados pelas fábricas de cimento como combustível alternativo no lugar do carvão, pois a borracha de pneu tem maior poder calorífico (de 12 mil a 16 mil BTUs por quilo) que a madeira ou o carvão.
Composição asfáltica Para a chamada composição asfáltica, utilizam-se partículas de pó de borracha, com dimensão de até 5 mm e umidade máxima de 2%, para serem misturadas ao asfalto na proporção de 1 a 3% em peso. A mistura da borracha com o asfalto aumenta a elasticidade e retarda o processo de trincamento das pistas. Apesar de ser 25% mais caro do que o asfalto comum, o “asfalto ecológico” dura 40% mais e retira de circulação cerca de mil pneus para cada quilômetro construído.
Aterros sanitários A disposição em aterros sanitários tem se mostrado inadequada, por apresentarem baixa compressibilidade, reduzindo a vida útil dos aterros existentes. A trituração, que resolveria o problema da compactação, é um processo caro por causa da elevada quantidade de aço (40%) da composição do pneu . Vários países começaram a adotar medidas para que se dê destino mais adequado aos pneus descartados. Diretriz já adotada pela Comunidade Européia, em 1999, estabelece que, a partir de 2003, os aterros não poderão receber pneus inteiros e, a partir de 2006, nem mesmo os fragmentados, porém, ainda não se definiu o que fazer depois.
Coleta seletiva de pneus Para os processos de reutilização e reciclagem em larga escala do pneu, a implantação de uma logística para a coleta e entrega dos pneus usados tem sido uma das principais dificuldades encontradas. No Rio de Janeiro, a Companhia Municipal de Limpeza Urbana (COMLURB), com o auxílio da comunidade e, em parceria com empresas, vem realizando um trabalho para a coleta, armazenagem e encaminhamento desse material para recuperação, principalmente, como fonte de energia. Esses resultados como outros de novas pesquisas serão mostrados nos cursos de reciclagem de Plástico e Coleta Seletiva e Beneficiamento de Lixo, e Reciclagem de PET, que serão oferecidos pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos Ambientais e Desenvolvimento do CCMN da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Mais informações no nosso site: www.niead.ufrj.br , ou pelo telefone (21) 2598 9495.
(1) Pós-graduação Executiva em Meio Ambiente, MBE/COPPE, Universidade Federal do Rio de Janeiro
(2) Instituto de Macromoléculas Professora Eloisa Mano,Universidade Federal do Rio de Janeiro, Tel. (21)2562-7224, elen@ima.ufrj.br
REFERÊNCIAS ANDRIETTA, A. J. (2003) – “Pneus e meio ambiente: um grande problema requer uma grande solução“, disponível em www.reciclarepreciso.hpg.ig.com.br/recipneus.htm , acessado em 17.05.03 BARÃO, L. (2003) – Mesa Redonda para o Setor de reforma de Pneus. “Alguns dados relevantes e ações institucionais em parceria e apoio ao setor”. Março de 2003. FIRJAN. CIMINO, M.A. e ZANTA, V. M. (2003) – “ Minimização de resíduos sólidos urbanos – alternativas tecnológicas para pneumáticos inservíveis” , apresentado no Seminário Nacional de Limpeza Urbana (SENALIMP) em 2003 LOJUDICE, M. (2002) – “Companhias investem para reciclar pneus” – disponível em http://www2.ciesp.org.br/bolsa/outros_servicos/detalhes_noticias.asp?ID=47 , atualizado em 25/06/2002 LUND (1993) – The McGraw – Hill Recycling Handbook – New York: McGraw – Hill, Cap 18 MORAIS, C. P. (2003-b) – “Estudo indica processos de reaproveitamento de pneus“ - disponível em http://www.noolhar.com/opovo/cienciaesaude/255164.html , acessado em 19.06.03 IODA, S. (2003) – “Reutilização de pneus como alternativa para aumento da vida útil de aterros” -disponível em http://www.maringa.pr.gov.br/forumambiental/anais/paletras/resid_solidos_sandraoda.htm , acessado em 17.05.03 l SANTOS, Y. (2003) – “Reciclagem de pneus avança” - disponível em http://www.usp.br/jorusp/arquivo/2001/jusp563/caderno/pesquisa03.html , acessado em 18.05.03 l SILVA, M. (2003) – “Projeto Lixo Seletivo – Pneus” - disponível em http://www.marceelosilva.com.br/projeto_lixo-12htm , acessado em 19.06.03 |
|
www.jorplast.com.br | Abertura | Índice da Edição do Mês | Próxima Matéria | Correio |