Outubro de 2004

Yes, não temos bananas...

Sydney A. Latini*

       Saudade do tempo em que a cantora Josephine Baker popularizou a canção que anunciava ao mundo que tínhamos muita banana no Brasil e que o compositor Braguinha confirmava: “Yes, nós temos banana, banana pra dar e vender...”

        Hoje, já não temos tantas bananas, pelo menos tantas espécies de uma das frutas mais abundantes em nosso País. Onde  estão a banana ouro, a banana maçã, a banana São Tomé?

        Mas não foram só as bananas que desapareceram ou escassearam. Não se encontram mais as suculentas laranjas seletas, com umbigo e gomos volumosos; Bahia, lima, pêra, também as laranjas da terra, com as quais nossas mães e avós preparavam os deliciosos doces em calda.

        Parece que não foi apenas a maçã, mordida por Eva no paraíso, que tornou-se fruto proibido.

        Quantos meninos da geração atual sabem o que é jaca, araçá, framboesa, jaboticaba, carambola?

        As tradicionais frutas brasileiras não só escassearam ou desapareceram como também, as que sobrevivem, perderam a qualidade. A banana prata (sobrevivente) é de má qualidade (raquítica e sem o mesmo paladar); o caqui encolheu, já não se encontram aqueles caquis grandes ,que os japoneses aclimataram em nossa terra; e as ameixas? Referimo-nos  àquelas, grandes e suculentas, e não às que ainda se encontram nos supermercados, duras e sem gosto.

        Nos restaurantes só se encontram – quando se encontram – três frutas: abacaxi, mamão e melão. Parece que não vivemos num país tropical, cujo clima e ecologia em geral são próprios à cultura de grande variedade de frutas.

        Há uma outra ocorrência curiosa no que se refere ao cultivo de frutas no Brasil. Enquanto desprezam-se as frutas nativas, passamos a cultivar aqui frutas que eram tradicionalmente importadas, como maçã e pêra; com uma diferença: as importadas eram de boa qualidade, enquanto as cultivadas no Brasil são minguadas, duras, dessaborosas.

        Da laranja só nos resta a opção pelos sucos. Impregnados de conservantes e pigmentos, mas a industrialização de outras frutas como goiaba, marmelo, pêssego, para transformá-las em goiabada (que saudade da legítima goiabada cascão), marmelada e pessegada, não ganhou escala. Qual a explicação? Falta de mercado? Dificuldade de suprimento? Pequenas margens de lucros? Produtos que durante muitos anos caracterizavam regiões, como o queijo de Minas (aquele branco, consistente, com muitos furos), a goiabada cascão de Campos, o melado (fio de ouro)  também campista, as compotas, passaram a constituir raridades, já não se fala em supermercados, onde não se encontram mesmo, mas até em estabelecimentos que oferecem produtos mais selecionados.

        Fenômeno curioso esse e que merece maior atenção. Não apenas para satisfazer o paladar dos glutões saudosistas mas para preservar culturas que já tiveram expressão em várias regiões e aceitação nacional.

        Tanto se tem destacado a atuação da EMBRAPA e suas vitórias no setor de agro-negócios que muito provavelmente não lhe terá passando despercebido o que vem ocorrendo com a fruticultura brasileira e segmentos afins.

        Quando vamos poder voltar a oferecer nossas frutas, as saborosas frutas brasileiras, ao Brasil e ao mundo?

        Trata-se, em sua maioria, de culturas familiares, desenvolvidas em chácaras, sítios ou granjas, que merecem a tão alardeada assistência técnica e financeira, de acesso simples e a custo razoável. Eis uma forma de gerar emprego e distribuir renda a curto prazo, além de amparar a agricultura de subsistência, o que significa reduzir a fome.

*Economista, foi Secretário Executivo do GEIA-Grupo Executivo da Indústria Automobilística durante o Governo JK.


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